As lendas da Copa: Estádios seriam "Elefantes Brancos"?

Aldo Rebelo já foi um sujeito sério. O ministro dos Esportes, por quem eu nutria profundo respeito desde a época da CPI da CBF presidida por ele no início dos anos 2000, veio a Natal fazer chacota da nossa cara. Rebelo representa o país e, como tal, não tinha o direito de fazer o papelão que fez durante a visita à Arena das Dunas. Questionado pelos jornalistas sobre o cronograma das obras, o ministro comunista não só afirmou que a construção do estádio está adiantada como chamou de lenda as notícias sobre o atraso nas obras.

Aldo Rebelo é um artista. Acha que o natalense é burro, que não pensa, que não vê, que não tem memória. O ministro, é verdade, precisa mostrar serviço. E acredita que, para isso, tem que empurrar para debaixo do tapete os erros e atropelos cometidos até aqui com vistas à sede da Copa. Natal esteve sim ameaçada de ser cortada do Mundial da Fifa por incapacidade e incompetência. O governo passado não conseguia fazer sequer a licitação para a construção do estádio. Na última semana da transição entre os dois governos – Iberê e Rosalba – foi um deus nos acuda para cumprir o prazo do lançamento do edital da Arena sob pena de eliminação.

O vexame foi tão grande que durante a primeira vistoria da Fifa às obras do estádio, em maio de 2010, foi preciso fazer uma gambiarra para esconder o óbvio. Na época, o próprio governo mandou derrubar uma creche para que os donos da bola enxergassem algo sendo feito. Não foi coincidência: a primeira medida prática da Copa em Natal se revelou um ataque à educação.

Mas Aldo Rebelo tem um jeito diferente de ver as coisas. Ufanista, o ministro prefere desacreditar as críticas. Fala de um legado que não existe. Fabrica ilusões. Semana passada, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Rebelo criticou quem chama de elefante branco os estádios que estão sendo erguidos em Natal, Manaus, Brasília e Cuiabá. O ministro teve a cara de pau de exaltar a tradição centenária (!?) do futebol amazonense como justificativa para a construção de um estádio com capacidade para 45 mil lugares. Como bem lembrou essa semana o repórter Luan Xavier, o clássico amazonense Rio Negro x Nacional levava duas mil pessoas, em média, ao Vivaldão, demolido para a construção da Arena Amazônia. Noves fora a comparação esdrúxula, também é patético ouvi-lo dizer que essas arenas em construção para a Copa serão muito mais que estádios de futebol. A moda agora é chamar de ‘arena multiuso’. Se a perspectiva fosse boa e o processo sério, não tinha aparecido só a OAS em Natal para fazer a obra.

Mas tenhamos fé. Se nos fugiu a Copa das Confederações, nossa capital já está credenciada como uma das primeiras cidades do mundo a ter, em muito pouco tempo, mais estádios de futebol que hospitais públicos. O resto é lenda, como diz o ministro. Até porque, no final, o que vale mesmo é que seremos campeões.

Jornal de Hoje