Farmácias pedem ao Ministério da Saúde para auxiliar na vacinação contra a Covid-19


Foto: Rodrigo Nunes/MS

O CFF (Conselho Federal de Farmácia) e a Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias) têm procurado o Ministério da Saúde para que farmácias públicas e privadas se tornem pontos de vacinação contra a Covid-19. No Brasil, há cerca de 90 mil farmácias registradas.

Ao menos 4.573 unidades com salas de imunização e 6.860 farmacêuticos em todo o país já foram colocados à disposição da pasta pela Abrafarma para a realização do serviço em todo o país.

Dados da FIP (Federação Internacional Farmacêutica), mostram que as farmácias nos EUA, no Reino Unido e na Irlanda já estão auxiliando as autoridades na vacinação contra a Covid-19.

O Brasil possui atualmente, segundo o Ministério da Saúde, 38 mil salas de vacinas, podendo chegar a 50 mil postos em períodos de campanhas e 52 Centros de Referência de Imunobiológicos Especiais.

Walter Jorge João, presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF), disse que o número de farmácias que disponibilizariam o serviço poderia ser ainda maior, uma vez que a Abrafarma representa parte das farmácias registradas no conselho.

“As vantagens para a prestação desse serviço em farmácias seriam a maior facilidade de acesso da população, com horários mais variados e estendidos, e a maior proximidade da residência dos pacientes”, disse.

Ele acrescentou que desde março do ano passado o CFF tem se reunido com membros do Ministério da Saúde para falar sobre o interesse da ampliação da capacidade da rede de vacinação com a ajuda das farmácias, mas o governo federal ainda não deu nenhuma sinalização sobre o assunto.

O Ministério da Saúde foi procurado, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem.​

Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma, também já encaminhou ao Ministério da Saúde e aos estados documento que coloca as farmácias à disposição das autoridades.

Para facilitar a logística, sugeriu que as vacinas sejam disponibilizadas pelo Governo Federal e entregues nos Centros de Distribuição das redes associadas. A partir daí, as empresas providenciam a distribuição para as 4.573 localidades.

Além disso, nas redes associadas à Abrafarma, seria utilizado um sistema de agendamento eletrônico com a finalidade de evitar filas, minimizando riscos na operação.

“Com esse quantitativo de salas conseguiríamos imunizar 365.840 pessoas por dia no país. Estamos tentando ajudar até para ter mais adesão, muitas pessoas têm medo de enfrentar o serviço comum”, disse.

O presidente do CFF acrescenta que em 2020, por meio dos termos de cooperação público-privado, farmácias e drogarias conseguiram apoiar a saúde pública na campanha nacional contra a Influenza, durante o enfrentamento à pandemia da Covid-19.

Em Porto Alegre (RS), por exemplo, do total de 719.573 doses, 155.056 foram ministradas por farmacêuticos em farmácias privadas, ou seja, 22% do total das doses administradas no município.

“Uma das grandes contribuições foi diminuir a circulação e pacientes nas Unidades Básicas de Saúde e o aumento da disponibilidade da equipe de saúde para atendimento da demanda crescente de casos de Covid-19”, disse.

Tanto o CFF quanto a Abrafarma afirmam que não há nenhum pedido de contrapartida ao governo federal. As farmácias também têm a ganhar com a maior visibilidade dos produtos que vende, além de deixar claro à população que realizam o serviço de vacinação.

Apesar de a Lei 5.991 permitir a aplicação de medicamentos injetáveis por farmacêuticos desde 1973, somente em 2014, com a Lei 13.021, foi autorizada a aplicação de vacinas e soros em farmácias.

A Anvisa regulamentou a lei em dezembro de 2017. Antes, isso só poderia ser feito por médicos e em clínicas.

“Embora seja tudo legal, a população ainda não reconhece a farmácia como um lugar para vacinar seu filho, por muito anos a vacinação da rede privada ficou restrita às clínicas particulares”, disse o presidente do CFF.

Marcelo Gomes, pesquisador em saúde pública da Fiocruz, avalia que se as farmácias tiveram condições adequadas para realizar o serviço, isso poderia reduzir o número de filas e agilizaria o processo.

“Se essa iniciativa conseguir ampliar o número de pontos de vacinação e aumentar o horário de aplicação, vejo isso como uma boa iniciativa. O ponto central é garantir que todos os protocolos sejam respeitados, os registros de vacinação sejam feitos e a segunda dose seja garantida”, avalia.

A professora da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) Ethel Maciel, pós-doutora em epidemiologia, disse que as farmácias precisam ter estrutura adequada para que isso possa ocorrer.

“Acho uma boa ideia. Todos que puderem ajudar será ótimo, pois de fato teremos que fazer uma operação de guerra ,e para não aglomerar, é bom termos mais opções”, disse.

O pesquisador Marcelo Bragatte disse que, apesar de as farmácias servirem como mais pontos de vacinação, seria mais fácil concentrar as vacinas em postos de saúde centrais das cidades para reduzir o esforço logístico.

“Caso a farmácia tenha infraestrutura, pessoas e localização adequada, seria viável. Mas para isso ser agilizado, primeiro seria necessário um cadastro a nível plataforma do governo com as interessadas e que atendam as premissas”, disse.

Fátima Marinho, médica epidemiologista e especialista sênior da Vital Strategies, acrescenta que vacinar em farmácia é uma experiência americana. Entretanto, as farmácias de lá são diferentes das brasileiras e realizam também consulta de enfermagem autorizada e paga pelos planos de saúde.

“O Brasil tem um dos melhores programas de imunização do mundo, não precisa apelar para farmácias, isso é coisa de país que não tem atenção primária em saúde. Em 2009, na epidemia do H1N1, foram vacinadas 80 milhões de pessoas em 3 meses no Brasil, sem grande confusão”, disse.

FolhaPress