Polêmica

O passaporte para os imunes: médicos divergem sobre a adoção da medida para aliviar restrições aos “coronapositivos”

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

A ideia de distribuir certificados a quem pegou Covid-19 e está curado já foi aventada pelos governos de vários países, como Chile, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido. Apelidados “passaportes de imunidade”, tais documentos permitiriam circular e trabalhar livremente durante as quarentenas. Os portadores – conhecidos como “coronapositivos” – teriam mais liberdade para cuidar dos infectados no combate à pandemia. Mais que isso, teriam papel decisivo para a retomada gradual e responsável da atividade econômica.

Mas a medida também desperta controvérsia, por dividir a sociedade ao meio, conferir privilégios e, indiretamente, incentivar comportamentos irresponsáveis que levem à infecção. Embora os curados adquiram imunidade (como constatam estudos recentes aqui e aqui), os cientistas ainda debatem o grau e a duração dela. Nem todos os testes de anticorpos são confiáveis. Tudo isso tem gerado entre os médicos um debate intenso a respeito da questão.

Duas das principais revistas médicas do planeta – a britânica The Lancet e a americana Jama (da Associação Médica Americana) – publicam nesta semana artigos defendendo posições antagônicas sobre os “passaportes de imunidade”. Na Jama, dois artigos os recomendam. Na Lancet, outro artigo os encara com reserva. Entender as posições dos dois lados permite avaliar as condições necessárias para adoção da medida.

O caso contrário aos passaportes se baseia em dois tipos de argumento: científicos e sociais. Do ponto de vista científico, não há consenso sobre quão imunes os infectados ficam depois de pegar a doença, nem confiança nos testes disponíveis que proliferam no mercado. “Não está estabelecido ainda se a presença de anticorpos detectáveis confere imunidade a infecções futuras nos humanos e, em caso positivo, que quantidade é necessária para proteção e quanto tempo dura tal imunidade”, escreve na Lancet Alexandra Phelan.

Os casos de curados que voltam a testar positivo têm sido atribuídos a falhas nos testes. Seja por tal motivos ou por limitação da imunidade, diz Phelan, seria temerário adotar os passaportes sem saber quão protegidos estariam os portadores dos passaportes.

A segunda linha de argumentação contra os passaportes é social. Para Phelan, eles podem criar um estigma, ao impor restrições artificiais a quem pode ou não participar das atividades livremente. Haveria um incentivo perverso a contrair a Covid-19 para poder trabalhar, em particular nos grupos economicamente mais vulneráveis. “Passaportes de imunidade podem acabar tirando dos governos o dever de adotar políticas de proteção aos direitos econômicos, habitacionais e de saúde, ao fornecer um remédio rápido.”

Phelan cita ainda o risco inerente de corrupção que todo privilégio concedido pelo governo costuma gerar. “Inequidades étnicas, raciais e socioeconômicas poderão se refletir na administração de tais certificados, dirigindo quem pode acessar testes de anticorpos, quem está na frente da fila”, afirma. Nem sempre as leis vigentes contra a discriminação seriam suficientes para evitar desvios.

Tais leis convivem com documentos como a “Carte Jaune”, a prova de que o portador foi vacinado para febre amarela exigida para entrada em vários países. Mas há, diz Phelan, uma diferença. “A principal distinção é a natureza do incentivo. Certificados de vacinação incentivam o indivíduo a se vacinar contra o vírus, um bem social. Em contraste, os passaportes de imunidade incentivam a infecção.”

O caso favorável aos passaportes procura desmontar cada um desses argumentos. Em artigo na Jama, Goving Persad e Ezekiel Emanuel preferem chamá-los de “licenças” e os comparam a uma carteira de motorista. “Elas não deveriam ser avaliadas em comparação a um cenário de normalidade, mas às alternativas de impor restrições rigorosas durante muitos meses ou de permitir atividades que poderiam disseminar infecções”, escrevem.

O primeiro argumento que usam em defesa da medida é que ela serve não para restringir liberdades, mas para ampliá-las. Confere direitos a parte da sociedade, de modo que reduz os riscos aos demais – exatamente como uma carteira de motorista permite que parte dos cidadãos dirija, desde que de modo responsável. “Licenças baseadas em imunidade não violam o tratamento igual dos cidadãos, porque os fatores usados para conferir a licença não são discriminatórios, como raça ou religião, mas estão apoiado em evidência sólida”, afirmam.

Permitir a retomada de atividades aos portadores de tais licenças, segundo Persad e Emanuel, beneficiaria a parcela mais vulnerável da sociedade, que de outra forma estaria impedida de trabalhar mesmo que imune. Também beneficiaria os demais aos contribuir para a retomada da economia e diminuir as infecções, já que hospitais e centros de tratamento estariam sob cuidados dos “coronapositivos”. Eles reconhecem, porém, quatro desafios práticos na implementação:

Garantir a qualidade dos testes por meio da certificação pela autoridade pública sanitária;

Ter um grau razoável de certeza sobre o período de imunidade assegurado aos que já contraíram a doença (tópico ainda objeto de debate entre os cientistas);

Tentar mitigar o incentivo às infecções garantindo licenças a grupos menos afetados pela doença (como crianças ou estudantes) ou criando uma estratégia específica para aqueles sob maior risco de contrair o vírus (como profissionais de saúde);

Projetar os certificados, em formato físico ou digital, de modo a reduzir o risco de fraudes por meio de sistemas de criptografia ou biometria (como já se faz com vistos e passaportes).

Os dois concluem que, “embora as licenças exijam implementação cuidadosa e base científica para ser éticas na prática, nada as torna anti-éticas em princípio”.

Em comentário também na Jama, Mark Hall e David Studdert basicamente repetem os mesmo argumentos e adotam uma postura pragmática. “Idealmente, uma compreensão científica mais clara e deliberação cuidadosa precederia qualquer política pública ou privada que aliviasse as restrições com base em testes positivos”, escrevem. “Mas parece que o ideal de uma abordagem calculada, baseada em evidência, será atropelado pela esperança e pela demanda por testes.”

A sociedade, afirmam, acabará naturalmente reagindo antes da formação do consenso sobre a melhor política. Testes positivos mudarão o comportamento de parcela da população. Cairá o respeito às restrições. “Mesmo sem a certificação de imunidade autorizada, as pessoas começarão a se autocertificar, com menos precisão e credibilidade do que se o certificado fosse oficial.”

Blog do Helio Gurovitz – G1

 

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  1. Aqui tambem se falou nisso. Guedes numa teleconferência com empresarios. Para inglês ver, claro.

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VÍDEO: Médico de Jair Bolsonaro diz que quadro é ‘grave’ e que ex-presidente ficará internado por tempo indeterminado

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi internado na UTI do Hospital DF Star, em Brasília, após apresentar calafrios e vômitos na prisão da Papudinha, nesta sexta-feira (13).

De acordo com o médico, o quadro é considerado grave e exigirá internação por tempo indeterminado, podendo durar ao menos sete dias.

Segundo o médico Brasil Caiado, Bolsonaro foi diagnosticado com broncopneumonia bacteriana bilateral, provavelmente causada por aspiração relacionada a refluxo gastroesofágico. Ele está recebendo antibióticos intravenosos e suporte clínico não invasivo.

Caiado afirmou que esta é a pneumonia mais acentuada já registrada no ex-presidente. Após iniciar o tratamento com dois antibióticos, Bolsonaro apresentou leve melhora, mas ainda relata sintomas como enjoo, dor de cabeça e dores musculares. A equipe médica agora aguarda a resposta do organismo ao tratamento.

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Gilmar Mendes leva suspensão da quebra de sigilo de Lulinha ao plenário do STF

Foto: Luiz Silveira/STF

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu destaque no julgamento que analisa a decisão do ministro Flávio Dino que suspendeu as quebras de sigilo aprovadas pela CPMI do INSS, elas a de Lulinha, filho do presidente Lula.

Com o pedido, o processo deixa o plenário virtual e será analisado em sessão presencial do STF, em data a ser definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin.

Antes da suspensão, apenas Dino havia votado, defendendo a manutenção de sua própria decisão.

O caso chegou ao Supremo após ação da empresária Roberta Luchsinger, que contestou a quebra de seus sigilos bancário e fiscal determinada pela CPMI. A medida também atingia o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na decisão liminar, Dino suspendeu as quebras de sigilo aprovadas pela comissão, argumentando que medidas desse tipo exigem análise individualizada, o que não ocorreu quando a CPMI aprovou 87 requerimentos em bloco. O ministro indicou que o Congresso pode voltar a analisar os pedidos, desde que faça votação separada para cada caso.

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Produção industrial do RN cai quase 25% em janeiro de 2026, maior recuo do país

Foto: Agência Brasil/EBC

A produção industrial do Rio Grande do Norte caiu 24,9% em janeiro de 2026 na comparação com o mesmo mês do ano anterior, segundo a Pesquisa Industrial Mensal divulgada nesta sexta-feira (13) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado foi o maior recuo entre os 17 estados analisados. A queda foi puxada principalmente pela retração de 38,6% na fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, impactada por paradas programadas para manutenção no setor.

Outras atividades também registraram queda, como indústrias extrativas (-7,5%) e produção de alimentos (-5,6%). A única alta foi na confecção de vestuário e acessórios, que cresceu 41,6%.

No acumulado de 12 meses, a produção industrial potiguar recuou 12,5%. No cenário nacional, a indústria avançou 0,2% em janeiro. Entre os destaques positivos estão Pernambuco, com alta de 27,7%, e Espírito Santo, com 14,5%.

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  1. PORCARIA DO MP DE NATAL NO LUGAR DE IR ATRÁS DE LADRAO VÃO ATRÁS DE EMPRESÁRIOS ISSO QUE DÁ

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Vorcaro é transferido para ala da saúde na prisão para “preservar integridade física”

Foto: reprodução

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, foi transferido da cela de isolamento para a ala de saúde da Penitenciária Federal em Brasília.

Ele permanece isolado em uma cela de cerca de 7 a 8 metros quadrados, monitorada por câmeras 24 horas por dia, com exceção do banheiro. Um vidro separa o espaço da área médica, permitindo observação constante pelos profissionais de saúde.

Segundo policiais ouvidos pela reportagem da CNN Brasil, a mudança ocorreu após a morte de Luiz Phelipe Mourão, conhecido como “Sicário”, que atentou contra a própria vida após ser preso e morreu em um hospital de Belo Horizonte.

A medida, segundo as fontes ouvidas pela CNN, busca preservar a integridade física de Vorcaro. Não há previsão de mudança no regime de custódia.

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Petrobras anuncia aumento de R$ 0,38 no diesel para distribuidoras a partir deste sábado (14)

Foto: Petrobras/divulgação

A Petrobras anunciou nesta sexta-feira (13) aumento de R$ 0,38 por litro no preço do diesel A vendido às distribuidoras. O novo valor passa a valer a partir deste sábado (14).

Com o reajuste, o preço médio do diesel A da estatal chegará a R$ 3,65 por litro. Considerando a mistura obrigatória de 85% de diesel e 15% de biodiesel, o impacto estimado no diesel B vendido nos postos será de R$ 0,32 por litro.

Segundo a empresa, parte do efeito do aumento será compensada pela isenção de PIS e Cofins sobre o diesel, medida anunciada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira (12).

De acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), o diesel da Petrobras estava 72% abaixo da paridade de importação, pressionado pela alta do petróleo tipo Brent crude oil, que subiu de cerca de US$ 70 para perto de US$ 100 por barril nas últimas semanas.

O último reajuste da estatal havia sido uma redução em maio de 2025, enquanto o último aumento ocorreu em fevereiro de 2025.

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Bolsonaro está em UTI com broncopneumonia bacteriana, diz boletim médico

Foto: reprodução/CNN

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi internado nesta sexta-feira (13) em uma unidade de terapia intensiva (UTI) em Brasília após ser diagnosticado com broncopneumonia bacteriana bilateral de provável origem aspirativa. A informação consta em boletim médico divulgado pelo Hospital DF Star.

De acordo com a nota, Bolsonaro deu entrada no hospital após apresentar febre alta, queda na saturação de oxigênio, sudorese e calafrios. Exames de imagem e laboratoriais teriam confirmado o diagnóstico da infecção pulmonar.

“Foi submetido a exames de imagens e laboratoriais que confirmaram broncopneumonia bacteriana bilateral de provável origem aspirativa. No momento encontra-se internado em unidade de terapia intensiva, em tratamento com antibioticoterapia venosa e suporte clínico não invasivo”, diz o boletim.

Segundo o comunicado, o ex-presidente permanece internado em UTI, recebendo tratamento com antibioticoterapia venosa e suporte clínico não invasivo.

Com informações de CNN Brasil

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    1. Preocupa não abifado, somos todos do pó e ao pó voltaremos, ou vc acha que não vai para debaixo do chão ou um crematório? Hora de muitos dizerem “e daí, menos um imbecil”

  1. Ele tem que escapar dessa. Apesar de que o flavio torce pra ele ir embora e isso ajudar em sua eleição.

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Lula diz que assessor do governo Trump só vai poder entrar no Brasil se Padilha puder entrar nos EUA

Foto: REUTERS/Adriano Machado

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (13) que o assessor do presidente norte-americano Donald Trump para temas relacionados ao Brasil, Darren Beattie, só entrará no país quando o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, puder entrar nos Estados Unidos.

“Aquele cara americano que disse que vinha pra cá, pra visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar e eu o proibi de vir ao Brasil, enquanto não liberar os vistos do ministro da Saúde, que está bloqueado”, afirmou.

“Não, você sabe que bloquearam o visto do Padilha, o visto da mulher dele e o visto da filha dele de 10 anos, sabe? Então, Padilha, esteja certo que você está sendo protegido”, emendou.

Declaração do presidente ocorreu em agenda no Rio de Janeiro. Lula participou do evento de inauguração do Hospital do Andaraí.

Interlocutores do Itamaraty confirmam nesta tarde a revogação de visto de Darren Beattie. O Brasil argumentou estar usando o princípio adotado internacionalmente, inclusive pelos americanos, de revogação.

Em agosto do ano passado, os Estados Unidos cancelaram o visto da mulher e da filha, de 10 anos, de Alexandre de Padilha. O visto do ministro não foi cancelado porque já estava vencido.

No mês seguinte, Padilha afirmou ter recebido o visto dos Estados Unidos para participar de reunião na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York.

g1

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Geral

Governo Lula revoga visto de assessor do governo Trump que pretendia visitar Bolsonaro na cadeia

Chanceler diz a Moraes que visita de assessor de Trump a Bolsonaro pode ser intromissão no Brasil
Darren Beattie, assessor de Trump. Foto: Departamento de Estado dos EUA | Foto: Divulgação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta sexta-feira (13) que revogou o visto de Darren Beattie, assessor do presidente de Donald Trump, ao Brasil.

Com informações de g1

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  1. Não sou partidário, mas essa atitude do Presidente brasileiro, merece aplausos. Parabéns.

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Brasil

Moraes determina que PM providencie monitoramento de Bolsonaro em hospital

Foto: Fabio Rodrigues

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou que a Polícia Militar do Distrito Federal providencie o monitoramento de Jair Bolsonaro (PL) enquanto o ex-presidente estiver no hoospital DF Star, em Brasília.

Moraes também autorizou que a esposa de Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, acompanhe o ex-presidente, assim como permitiu a visita de seus filhos à unidade hositalar.

Em atualização.

CNN

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  1. Isso mesmo…esse elemento pode tá fingindo e correr pra uma embaixada.
    #presidiárioperigoso

    1. Pois é, o LULINHA envolvido no escândalo do INSS foi para a Espanha, essa turma é um perigo.

    2. Gente pequena como você é a explicação mais óbvia para a miséria dessa região, especialmente, e, do Brasil também. Não se ofenda, trata-se somente da constatação de um fato.

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