Quer se comunicar com clareza? Então, não faça como o técnico Tite

Tite, técnico da Seleção Brasileira (Sergio Moraes/Reuters)

Analisemos um trecho da entrevista do técnico Tite aos jornalistas Renata Vasconcellos e William Bonner:

Renata: A CBF vive um momento conturbado politicamente. Os três últimos presidentes são investigados por corrupção. José Maria Marin está preso nos Estados Unidos. O último presidente Marco Polo del Nero foi banido do Futebol pela Fifa. De que forma essas questões interferem no futebol da Seleção?

Técnico Tite: O grande marco e a grande relação de união que o Esporte dá, que o Futebol se dá é com a educação. Ela estabelece princípios que são importantes: ele é da qualidade, ele é não do jeitinho, mas do ser mais competente e ser melhor no enfrentamento, de vencer e ser leal, uma série de outros atributos que eles estão mais ligados à educação.

A parte política, eu não sou nenhum ingênuo, eu sei que ela acontece, mas eu quero deixar ela à margem, eu quero deixar ela com foco naquilo que a gente pode fazer de melhor.

Essa resposta possui o espírito da prolixidade, principalmente no primeiro parágrafo. Prolixo é o discurso (falado ou escrito) demasiadamente longo; que faz uso de palavras em excesso ao falar ou escrever; é aquilo muito demorado em explicações simples; que se torna cansativo aos ouvintes ou leitores.

Além de ser prolixa, a resposta do técnico Tite apoia-se linguisticamente no anacoluto. Esse recurso consiste na mudança de construção sintática no meio do enunciado, geralmente depois de uma pausa sensível. Vejamos:

“A parte política, eu não sou nenhum ingênuo, eu sei que ela acontece.”

Na ordem natural de nossa Língua (sujeito-verbo-complemento), a sentença seria:

“Eu sei que acontece a parte política; eu não sou nenhum ingênuo.”

No entanto, não pensemos que é um “erro” o anacoluto. É um recurso da língua; pode ser desagradável quando prejudicar a compreensão. Sendo excessiva, qualquer ferramenta linguística causará danos à fala, ao texto, à comunicação.

Explica o estudioso linguista Maurice Dessaintes sobre tal anacoluto:

“Depois de uma pausa, aquele que fala ou escreve abstrai-se do começo do enunciado e continua a exprimir-se como se iniciasse uma nova frase. ”

Ademais, exagero e confusão veem-se quando o atual técnico da Seleção usa os pronomes pessoais do caso reto: ela, ele, eu, eu, ela.

Não são recentes os comentários sobre a peculiaridade da retórica de Tite. Cunharam até a expressão “titebilidade” – em referência ao seu jeito típico de usar o vocabulário.

Para se ter clareza na comunicação, é preciso treinar e estar atento às quatro linhas gramaticais. Afinal de contas, se derrubar o vocábulo na área, pênalti será.

Diogo Arrais
@diogoarrais
YouTube: MesmaLíngua
Professor de Língua Portuguesa
Autor Gramatical pela Editora Saraiva

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