Foto: Ilustração de Silvana Mattievich
Em meio à evidente polarização política que acomete o Brasil — e o mundo —, desejar sair de um grupo de WhatsApp (quem nunca?), bater boca nas redes sociais, desfazer amizades e virar a cara para aquele parente “radical” (seja de que lado for) no almoço de domingo são comportamentos que têm feito parte da rotina social de muita gente. A poucos dias das eleições, o clima parece estar ainda mais tenso. Mas vale a pena deixar que as divergências políticas interfiram nas nossas relações?
O psicólogo e pesquisador da comunicação humana da UFMG Cláudio Paixão, doutor em Psicologia Social, propõe um exercício: antes de partir para o embate, é bom respirar fundo e pensar sobre os laços estabelecidos com o interlocutor ao longo da vida.
— Se estamos falando de uma pessoa amiga, acho válido refletir sobre tudo que ela representa para além do tema discutido. Cabem perguntas como: quais qualidades ela tem? O que já fez por mim? O que já fiz por ela? — sugere. — Em geral, temos uma história em comum que vai além da discussão travada num determinado momento.
Se os exercícios em busca da tolerância se fazem fundamentais nesses casos, o casal Grace e Rugerpe Neves, são mestres na “arte”. Juntos há 28 anos e pais de três filhos, eles sempre votaram em candidatos totalmente opostos. Digamos que, em casos de emergência, ela escolhe a saída pela esquerda, e ele fica com a da direita.
— Nos conhecemos em 1990 e nos casamos em 1992. Não era ano de eleição presidencial. Isso pode explicar — relembra Grace. — Eleição foi só em 1994, quando nosso filho estava completando o primeiro aninho. Estávamos bem ocupados começando a vida, e não existia essa polarização.
Mas isso não quer dizer que ela tenha “sangue de barata”. Os dois já bateram boca e, no fim das contas, combinaram que o melhor é não tocar no assunto dentro de casa. Entre os cuidados, ela procura não se manifestar no grupo de WhatsApp da família dele e também não faz nenhum tipo de comentário nas postagens feitas pelo companheiro nas redes sociais.
Rugerpe adota a mesma postura. Afinal, como ele frisa, as pessoas não são obrigadas a ter a mesma opinião. O casal lida tão bem com essa diferença, que, quando a votação vai para um segundo turno, aproveita para colocar o pé na estrada.
— O voto de um anularia o do outro de qualquer jeito — teoriza Rugerpe, que é frequentemente questionado sobre “como consegue conviver com a mulher”. — É a vontade dela. A gente não tem que entrar em conflito por causa disso. Temos tantas coisas em comum, que não seria justo deixar que as divergências políticas nos atrapalhem.
Outros personagens também contaram suas histórias de “guerra e paz”, em meio à polarização política. Confira a matéria completa aqui.
O Globo
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