Foto: Lucas Lima/Folhapress
O número de jovens eleitos para o cargo de vereador no país caiu 9,6% em comparação com os resultados das eleições municipais de 2012. Há quatro anos, 4.984 brasileiros com idades entre 17 e 29 anos foram escolhidos como parlamentares de suas cidades. Neste ano, esse número foi de 4.545. Para a avaliação, o UOL utilizou a definição do Estatuto da Juventude, que considera jovem uma pessoa que tenha entre 15 e 29 anos. Para ser vereador, o cidadão precisa ter, no mínimo, 18 anos na data da posse.
Se considerarmos o número total de vereadores eleitos em 2016, os jovens são 7,8% dos novos donos de cadeiras em Câmaras Municipais do país –em 2012, eram 8,7%. Esse número está longe do que poderia mostrar uma representação da porcentagem da população jovem no país, cerca de 25% dos mais de 206 milhões de brasileiros, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
“É importante que o jovem tenha representatividade [na política] para que ela seja efetiva, para participar dentro da estrutura democrática. Não basta entrar, não basta ser eleito”, avalia Paulo Silvino Ribeiro, doutor em sociologia e professor da FESP (Fundação Escola de Sociologia e Política) de São Paulo. “[Alguns jovens eleitos] chegam com o apelo de renovação, mas numa renovação de RG, não uma renovação de ideias.” Por isso, Silvino acredita que eles precisam colocar o jovem “na pauta, na agenda” das discussões.
Um exemplo é o jornalista e administrador Heraldo Soares (PSB), 28, segundo mais votado na cidade de Monte Alto (SP), a cerca de 360 quilômetros da capital paulista. Ele é o único de 13 eleitos para a Câmara da cidade que tem até 29 anos de idade.
Soares –que vai conciliar o trabalho como vereador com os últimos anos da faculdade de direito– só decidiu disputar um cargo político em março deste ano, após uma conversa com amigos. “Eu pensava igual aos outros, que o Brasil não tinha jeito. A gente quis parar de reclamar. Reclamar não resolve problema algum”, disse. Dentro do grupo de cinco amigos, eles decidiram que um deles seria candidato a vereador na cidade. Em votação, Soares foi o escolhido.
Agora, ele diz que poderá ajudar a mudar a ideia de quem “pensa que a política é algo ruim”. “A política é o único instrumento para transformar o país. Não tem outra maneira.”
Perfil
O perfil médio do jovem vereador mostra um homem perto de completar 26 anos de idade, do sexo masculino, solteiro e com ensino médio completo.
Três em cada cinco dos eleitos nesse grupo têm ao menos 26 anos de idade. Pessoas que tenham entre 18 e 20 anos equivalem a 6% dos 4.545 vereadores com até 29 anos. Sete em cada dez são solteiros, e oito em cada dez são homens.
Sobre grau de escolaridade, há dois grupos grandes. Além da maioria (43,9%), que possui ensino médio completo, 29,1% já haviam concluído algum curso de graduação quando foram eleitos.
Para Silvino, esse cenário reflete características da sociedade. “O ensino superior ainda é privilégio e a política tem um caráter misógino que se replica em todas as faixas etárias”, observa o professor da FESP.
Os jovens vereadores eleitos por idade:
18 anos: 52
19 anos: 92
20 anos: 125
21 anos: 148
22 anos: 217
23 anos: 294
24 anos: 360
25 anos: 400
26 anos: 508
27 anos: 672
28 anos: 791
29 anos: 886
Estatísticas
A região que mais apresenta jovens vereadores é o Nordeste, com 9,17% de jovens ou 1.750 eleitos, seguido do Norte, com 8,31%. O Centro-Oeste tem a pior proporção, com 6,47%.
A maior proporção de vereadores com menos de 29 anos de idade é do Partido Novo. Em sua primeira disputa municipal, metade de seus eleitos enquadra-se nessa faixa etária. Mas isso não significa um número alto: o Novo elegeu apenas quatro vereadores em todo o país no dia 2 de outubro. Felipe Camozzato, 28, foi escolhido pelos eleitores de Porto Alegre. O outro jovem é Leandro Lyra, 24, do Rio de Janeiro.
“Estive nas ruas desde 2015 e, antes disso, acompanhava a política”, lembra Camozzato. “Quando o Novo abriu o processo seletivo para selecionar seus candidatos, me senti responsável em dar esse passo adiante, uma vez que muito reclamei da situação política nas ruas e tinha condições de dar minha contribuição participando efetivamente da política.”
São Paulo, maior cidade do país e com a maior Câmara Municipal, tem apenas dois de seus 55 vereadores com idade inferior a 29 anos, em posições opostas na política: a servidora pública Sâmia Bomfim (PSOL), 27, e o estudante Fernando Holiday (DEM), 20. Isso dá uma proporção de 3,6% do total de vereadores, menos da metade da média nacional.
“O ambiente na Câmara de São Paulo é pouco receptivo a jovens, mulheres, LGBTs e ao povo em geral. Deveria ser exatamente o contrário”, avalia Sâmia. Para ela, a política é dominada “pelas mesmas velhas figuras”: “coronéis e chefes de bairros e regiões, comprometidos com interesses particulares”.
Rio de Janeiro tem índice ainda pior, com apenas 1 eleito entre 51 vereadores, ou 1,96%. Como comparação, entre os grandes colégios eleitorais do Brasil, Belo Horizonte tem 2,44% e Salvador tem 4,65%.
Dificuldades
Nas Câmaras, onde são minoria, os jovens terão dificuldade em implementar projetos sem o apoio de colegas mais velhos. “Mas é preciso considerar que há parlamentares que reconhecem a importância da juventude. Vai-se entendendo que os jovens precisam entrar na agenda, na pauta. É o que vai balizar o futuro do brasileiro”, avalia o professor Paulo Silvino.
“Mas não é porque é jovem que [o político] está preocupado com a juventude”, avalia Silvino. “Na democracia, todos devem ter representatividade para a gente fazer o debate. Quanto mais ideias, melhor.”
A visão é parecida com a de Camozzato, que vai assumir uma cadeira em Porto Alegre. “Não diria que é importante o jovem estar em uma Câmara por ser jovem, mas, sim, que é importante ter pessoas com competência e capacidade de realização que permitam realizar um bom trabalho, sejam elas jovens ou não.” Vereadora eleita em São Paulo, Sâmia concorda. “Acho que hoje o interesse do jovem pela política não se limita a ocupar os espaços institucionais e a Câmara, mas a discutir através das redes sociais e espaços de encontro suas aspirações e dificuldades diante do mundo”, diz.
O primeiro desafio dos jovens eleitores deve ser trazer as pessoas de volta para o debate político. Em várias cidades, como São Paulo e Curitiba, o número de abstenções e de votos brancos e nulos foi maior que o obtido por muitos candidatos vitoriosos.
“Acredito que muitos jovens estão desacreditados da política institucional, tendo em vista a crise política e os escândalos que envolvem a maioria dos partidos tradicionais no país. A política institucional, pela forma como se organiza, não é atrativa pela juventude”, comenta Sâmia. Ela também acredita que a reforma eleitoral dificultou que mais jovens e caras novas pudessem ser bem-sucedidos nesse processo eleitoral, “favorecendo candidatos já conhecidos e consolidados”.
Em Monte Alto (SP), cidade do jovem vereador Heraldo Soares, 22,25% dos 37.179 eleitores não participaram do processo democrático. “O brasileiro acha que tem que ficar longe da política, quando é o contrário, tem que se aproximar”, diz.
Jovens vereadores e participação no total de eleitos por partido:
Novo: 2 jovens vereadores (50% dos eleitos)
Rede: 18 (10,1%)
PRTB: 39 (10,0%)
PMB: 22 (10,0%)
PCdoB: 96 (9,6%)
PSDC: 40 (9,6%)
PSL: 81 (9,3%)
PTN: 71 (9,3%)
PMN: 48 (9,1%)
PHS: 78 (8,9%)
PRP: 54 (8,8%)
Solidariedade: 124 (8,6%)
PV: 129 (8,5%)
Pros: 84 (8,5%)
PSB: 306 (8,4%)
PTC: 48 (8,4%)
PEN: 44 (8,4%)
PTdoB: 41 (8,4%)
PP: 389 (8,2%)
PRB: 130 (8,0%)
PSC: 122 (8,0%)
PSD: 360 (7,8%)
PR: 233 (7,7%)
DEM: 220 (7,6%)
PDT: 288 (7,6%)
PMDB: 552 (7,3%)
PT: 201 (7,2%)
PTB: 217 (7,1%)
PSDB: 379 (7,0%)
PPS: 110 (6,6%)
PSOL: 3 (5,6%)
PPL: 4 (3,6%)
PCB: não elegeu vereadores jovens
PSTU: não elegeu nenhum vereador
PCO: não elegeu nenhum vereador
UOL
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