
Erich Rodrigues, CEO do Grupo Interjato e diretor do Comitê de Inovação da EPTEC – Associação das Empresas Potiguares de TI
A confirmação de que o Rio Grande do Norte receberá um dos supercomputadores previstos no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial é uma conquista que precisa ser compreendida para além do investimento bilionário. Estamos diante de uma infraestrutura capaz de ajudar a mudar a posição do Estado na economia brasileira.
Durante décadas, associamos infraestrutura a estradas, portos, aeroportos e redes elétricas. Tudo isso continua essencial. Mas a inteligência artificial acrescentou uma nova infraestrutura estratégica: capacidade computacional.
Treinar modelos de IA, realizar simulações científicas, aperfeiçoar previsões meteorológicas ou processar enormes volumes de dados exige capacidade que poucas instituições possuem. É esse o papel de um supercomputador.
A escolha do RN não aconteceu por acaso. Temos uma combinação singular de energia renovável, infraestrutura, pesquisa e um ecossistema tecnológico construído por instituições públicas e privadas.
A energia talvez seja o elemento mais emblemático. O RN tornou-se uma potência nacional em geração eólica e avança rapidamente na solar. Paradoxalmente, enfrentamos cortes dessa produção por limitações do sistema elétrico e momentos de excesso de oferta.
Isso nos obriga a pensar além do modelo de produzir energia no Nordeste para transportá-la aos grandes centros consumidores. Precisamos também atrair atividades de alto valor agregado para perto de onde essa energia é produzida.
É aí que a chegada do supercomputador ganha uma dimensão econômica muito maior: simboliza a possibilidade de transformar elétrons produzidos pelo vento e pelo sol potiguar em conhecimento, pesquisa, inteligência artificial e serviços digitais.
O impacto, entretanto, não estará apenas dentro da máquina. Infraestruturas dessa natureza funcionam como âncoras de ecossistemas. Universidades, pesquisadores, startups e empresas passam a ter novas razões para desenvolver projetos no seu entorno. O supercomputador poderá apoiar pesquisas em energia, saúde, clima, petróleo e gás, agricultura e inúmeras outras áreas.
Existe ainda uma oportunidade estratégica: os data centers. O mundo vive uma corrida por infraestrutura para inteligência artificial, sustentada por energia, conectividade e capacidade computacional. Receber uma infraestrutura dessa dimensão demonstra que o RN pode oferecer condições para operações digitais sofisticadas e fortalece nossa estratégia de atração de novos investimentos.
Ao redor desse ativo podemos estimular laboratórios de IA, startups, centros de pesquisa, serviços de nuvem e novos data centers, além de qualificar profissionais e aproximar universidades das empresas.
O RN passou as últimas décadas construindo uma posição de liderança em energia renovável. Agora surge a oportunidade de iniciar uma segunda transformação.
O Estado que aprendeu a transformar vento em energia precisa aprender a transformar energia em processamento, processamento em inteligência e inteligência em desenvolvimento econômico.
A chegada do supercomputador não encerra uma conquista. Ela inaugura uma oportunidade. Se soubermos aproveitá-la, poderá ser lembrada como o momento em que o Rio Grande do Norte começou a transformar sua potência energética também em potência digital.
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