
O segredo para quem quer seguir o noticiário sobre Eduardo Cunha é manter sempre à mão, como um metafórico comprimido de Isordil, uma dose de ceticismo. Nessa matéria, convém duvidar de tudo. A verdade, quando relacionada ao presidente da Câmara, é muito mais incrível do que a ficção. Quando se imagina que a situação já ultrapassou a fronteira do inacreditável, injeta-se o escárnio dentro do escândalo.
Laudos grafotécnicos atestam que é falsa a assinatura do deputado Vinícius Gurgel (PR-AP) no documento em que ele renunciou à vaga de membro titular do Conselho de Ética da Câmara. A falsificação, informam os peritos, é “primária”, “grosseira”. Aliado de Cunha, o deputado estava fora de Brasília no dia da votação sobre a abertura de processo de cassação contra ele. Renunciou com a rubrica-fantasma para dar lugar a outro aliado de Cunha: Maurício Quintella Lessa (PR-AL).
Ouvido, o deputado Gurgel revelou-se uma etílica criatura: “Eu bebo”, disse o aliado do absurdo. “Podia estar de ressaca. Quando a pessoa está de ressaca, não escreve do mesmo jeito, fica tremendo. Acho que tinha bebido um dia antes, assinei com pressa, no aeroporto, pode não ter sido igual, rabisquei lá.”
Quando tentou se explicar, Gurgel estava sóbrio como uma garafa de uísque lacrada. Ainda assim soou um tanto ébrio. Disse que, embora estivesse fora de Brasília, mantém em seu gabinete um estoque de cartas-renúncia assinadas com a devida antecedência. “Se eu assinei com pressa, se eu tava [de] porre, se eu tava de ressaca, se eu assinei com letra diferente, não vou ficar me batendo por isso.”
Procurado, Eduardo Cunha revelou-se pouco solidário. Esticou artificialmente uma sessão noturna da Câmara para retardar o início da reunião do Conselho de Ética, viabilizando a troca de um aliado por outro. Mas jura que não tem nada a ver com a encrenca. E lança Gurgel na sarjeta: “Todo mundo que praticar qualquer ato errado e ser responsável pelo ato, ele tem que ser, de uma certa forma, investigado. Não sei o que aconteceu, não cabe a mim, não diz respeito a mim.”
Gurgel há de tirar do episódio uma lição: se beber, não assine. No afã de socorrer quem não merece socorro, tornou-se ele próprio suspeito da prática de crime. Convém ao deputado acrescentar à pilha de renúncias que mantém no gabinete uma carta abdicando do mandato. As reuniões dos alcoólicos anônimos parecem mais adequadas para o personagem do que as sessões da Câmara dos Deputados.
JOSIAS DE SOUZA
A culpa é de quem elege esses energúmenos.Só pode ser ignorancia extrema ou venda de votos.