Candidata de 65 anos presta Enem há 20 anos para ‘manter a cabeça funcionando’

Lúcia Helena, de 65 anos, presta o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) desde a primeira edição, em 1998 – só deixou de fazer a prova em um ano, por problemas pessoais. Ler todas as perguntas e resolvê-las foi a forma que ela encontrou de “manter a cabeça funcionando”, de “lembrar as fórmulas matemáticas” e de “não esquecer as normas gramaticais”.

Desde que uma de suas filhas, Érica, foi diagnosticada com autismo, Lúcia parou de trabalhar como auxiliar de enfermagem e passou a se dedicar integralmente à menina. Fazer o Enem a cada ano é o único momento em que ela pode pensar somente nela. O restante de sua vida é inteiramente voltado para cuidar da família. Durante as mais de 5 horas de exame, Lúcia senta na cadeira, separa suas canetas e, naquele intervalo, sonha que é aluna de alguma instituição de ensino.

“Gosto de ler e de estudar, não posso ficar parada. Parei os estudos para me dedicar ao meu sol, que é minha filha Érica. Sou baixinha, mas quero estar ao redor, para proteger, sabe? Ser uma supermãe. Como fico cuidando dela, não consigo fazer uma faculdade. Mas não abro mão do Enem. É tão maravilhoso, fico até o último minuto para sair com o caderno de questões”, diz.

Outra filha de Lúcia – Heloísa Raquel, de 25 anos – acredita que o Enem seja a ponte que Lúcia estabelece com a realidade fora do lar. “Ela vive em função da Érica há quase 30 anos, porque o autismo dela é severo. Precisa ajudar a tomar banho, a evitar que ela se machuque. O único momento do ano em que minha mãe consegue deixar minha irmã é o do Enem”, conta. “É o que faz com que ela se sinta parte da sociedade.”

Depois que a Érica, hoje com 30 anos, iniciou um tratamento em uma instituição especializada, seu quadro melhorou – passou a ficar mais calma e a aceitar a companhia de outras pessoas. Para alguém com autismo, a interação social é justamente uma das principais dificuldades. Diante disso, as outras três filhas de Lúcia podem se revezar como acompanhantes da irmã.

Desde então, a família concentra-se em um objetivo: insistir para que a mãe, em 2019, realize o sonho de cursar biomedicina.

“Já pensou, estudar sobre as vacinas? Estudar com esses livros todos? Minha nossa, não consigo nem imaginar. Seria maravilhoso”, diz Lúcia.

G1