Compra e venda de ações na Bolsa já retratam descrença com economia

A alta da Bolsa brasileira em 2019, agora um pouco espremida pela recente turbulência política, mascara um pessimismo com a recuperação econômica do país, que já vem desde o início do ano.

Ao longo dos últimos meses, os investidores estão trocando de posição. Eles passaram a vender papéis de empresas de consumo ou focadas no mercado interno e estão comprando ações principalmente de exportadoras, em especial de commodities.

A alta do Ibovespa, principal índice acionário do país, que renovou máximas históricas desde a virada do ano, não foi disseminada de forma equânime. Entre as principais companhias que se valorizam e sustentam o índice estão justamente as ligadas à exportação e ao setor de energia.

No grupo das que amargam perdas, predominam as ligadas ao setor de consumo, dependentes, portanto, da recuperação da economia.

A lanterninha entre as empresas é a Lojas Americanas, acompanhada ainda de B2W, CVC, Hypera e administradoras de shoppings, como Iguatemi, BR Malls e Multiplan.

Fora do espectro consumo figuram Embraer, BR Distribuidora e Ultrapar. Essas empresas estão entre as dez principais quedas do ano até aqui.

Em seguida vem a Magazine Luiza, que há anos figura como um grande case de sucesso: uma grande reestruturação levou a companhia a multiplicar seu valor de mercado. Nem isso foi suficiente para fazê-la escapar do pessimismo instaurado em 2019.

Não distantes entre as baixas estão também Via Varejo e Lojas Renner.

A lista dá uma amostra da desconfiança de investidores com a capacidade de crescimento do varejo em um ambiente mais adverso e, na leitura ampliada, com a própria economia brasileira, que não esboça reação.

“A tal da recuperação da economia ainda não chegou. O resultado da empresa vai ser menor, e isso já dá no modelo”, diz Thiago Salomão, da Rico Investimento.

O mercado financeiro chegou a prever que o PIB (Produto Interno Bruto) cresceria 3% neste ano, projeções que já foram cortadas para menos de 2%. Na sexta, o Itaú reduziu sua estimativa para 1,3%, colocando o desempenho deste ano em linha com o decepcionante crescimento de 2018.

Essa seria uma das explicações para a queda no valor das ações das companhias ligadas a consumo.

Desde a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), o mercado financeiro viveu uma euforia calcada na expectativa de realização de reformas que levariam a economia a deslanchar.

Os indicadores de confiança da FGV (Fundação Getulio Vargas) vinham mostrando recuperação, apesar de permanecerem no campo pessimista (abaixo de 100 pontos em uma escala que vai de 0 a 200).

Mesmo esse pequeno ganho foi devolvido em março, quando o novo governo começou a se consolidar.

“Existe uma calibragem das expectativas de empresários e consumidores pela frustração com andamento da economia, a recuperação está mais devagar que o esperado, e há demora no andamento das reformas”, afirma Rodolpho Tobler, coordenador das sondagens de confiança do FGV-Ibre.

A confiança em baixa corta o potencial de o consumidor ir às compras, limitando as vendas no varejo e também o consumo de serviço.

Antes de o cenário virar, analistas recomendavam investimento em ações ligadas a consumo. Havia também grande expectativa com a estreia de empresas do segmento na Bolsa, como o IPO (oferta pública inicial de ações) da Centauro, que está em andamento.

Era uma perspectiva de que as coisas iriam melhorar. Os preços das empresas na Bolsa de Valores costumam antecipar expectativas futuras, tanto de melhora quanto de piora nos resultados.

“O varejo no ano passado antecipou muito [a recuperação]. Acho que tem uma parte [da queda] de ‘não era bem assim’ como também pode ter ‘não vai ser assim para frente’”, diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator.

A alta de ações de empresas exportadoras —CSN e JBS lideram os ganhos no ano— mostram também a busca de investidores por ativos menos expostos ao mercado interno.

“O dinheiro no mercado não é infinito. Se não entra dinheiro novo, investidor sai de uma empresa X para ir para uma Y”, diz Salomão.

A disparada da Bolsa desde o ano passado foi majoritariamente conduzida pelo investidor local, enquanto estrangeiros sacaram recursos.

No acumulado de 2019 ainda havia entrada de dinheiro, mas os saques voltaram a crescer em abril. Como o grosso do dinheiro em Bolsa costuma ser aplicado por esse grupo de investidores, os saques acabam levando a uma maior mudança de posição.

Mas Salomão minimiza o impacto que a piora nas expectativas poderá ter sobre o segmento de varejo.

“Não acho que a projeção de resultado dessas empresas vai ser tão duramente impactado porque eles têm outras variáveis”, acrescenta o analista da Rico, que se diz otimista com as perspectivas econômicas.

Varejistas investem na melhoria das operações de ecommerce, à espera do risco de concorrência da Amazon.

Na semana passada, o assunto era a negociação pela compra da Netshoes. A loja online de artigos esportivos abriu capital em Nova York em 2017, mas é punida por acionistas por resultados operacionais ruins e endividamento.

No fim de janeiro, o banco BTG Pactual projetava um 2019 melhor para empresas de consumo, após um 2018 marcado pela paralisação dos caminhoneiros, pela Copa do Mundo e também pela eleição.

“Enquanto 2018 não foi tão brilhante, os últimos meses mostraram uma tendência que deveria se sustentar em 2019”, disse o banco, que listava ainda B2W, Renner, Magazine Luiza e CVC como as melhores ações do segmento para investir.

Os analistas não estavam disponíveis para comentar o atual panorama do setor até a conclusão desta reportagem.

FOLHAPRESS