POR EXAME – O ex-presidente do Uruguai José Mujica negou nesta sexta-feira que tenha conversado com Luiz Inácio Lula da Silva sobre o escândalo do “mensalão”, rebatendo informações do G1 neste sentido que constam de sua biografia autorizada “Uma ovelha negra no poder”.
“Aparece o amigo Lula ali conversando comigo sobre o ‘mensalão’, mas nunca falei com um brasileiro sobre o ‘mensalão’, por questões minhas. (José) Dirceu para mim não é um criminoso, está condenado mas é um formidável lutador”, disse Mujica sobre o ex-chefe da Casa Civil, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por corrupção.
Segundo a biografia de Mujica, escrita pelos jornalistas uruguaios Andrés Danza e Ernesto Tulbovitzii, o ex-presidente brasileiro “não é um corrupto” e viveu o escândalo do “mensalão” com “angústia e alguma culpa”.
De acordo com a biografia, Lula teria contado a Mujica no início de 2010, numa reunião em Brasília, que tinha que “lidar com muitas coisas imorais, chantagens” e que “esta era a única maneira de governar o Brasil”.
O Instituto Lula emitiu um comunicado que cita uma nota do portal de notícias G1 segundo a qual Andrés Danza nega que tais reflexões se referem ao “mensalão”.
Lula sempre negou ter qualquer informação sobre o escândalo que comprometeu grande parte da estrutura política do Partido dos Trabalhadores e do aparato governamental.
Em 2005, quando os detalhes do esquema de pagamentos mensais para comprar apoio político começaram a aparecer na imprensa, um indignado Lula disse se sentir traído pelas práticas inaceitáveis das quais não tinha conhecimento.
Esta prática é muito antiga, “grandes políticos da história precisaram recorrer a mecanismos similares”. “As vezes este é o preço infame das grandes obras’, disse Mujica.
“Lula não é corrupto como foi (o ex-presidente Fernando) Collor de Mello e outros presidentes brasileiros”, refletiu Mujica, de acordo com a biografia.
A AFP tentou sem sucesso entrar em contato com Mujica.
Andrés Danza, um dos autores, afirmou à AFP que boa parte do livro se debruça em reflexões sobre o Brasil. “Mujica vê Dilma (Rousseff) e Lula como uma espécie de padrinhos, os dois lhe ajudaram muito. Sobre Dilma diz que sempre esteve a serviço do Uruguai, que é mais executiva do que Lula, mas que tem menos carisma”.
A biografia também traz comentários sobre o ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que teria revelado a Mujica que durante um desentendimento com a Colômbia o presidente russo, Vladimir Putin, aconselhou-o militarmente para um eventual confronto com o país vizinho.

Segundo Mujica, Lula foi o exemplo que seguiu no período em que governou o Uruguai; "Tomei Lula como modelo, um progressista que nunca procurou a tensão. Agora vemos no País uma tensão que não é benéfica para o Brasil.