Novatos da Câmara apresentam mais projetos que a média dos deputados
Raio-x do ‘Estado’ avaliou a atuação de 22 deputados que saíram de movimentos de renovação; em outros aspectos eles lembram a ‘velha política’
Fernanda Boldrin e Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo
07 de dezembro de 2019 | 17h58
Novidade nas últimas eleições, deputados que saíram de movimentos políticos ou grupos de renovação apresentam mais projetos, trabalham mais em grupo, gastam menos verba e têm menos faltas do que a média dos parlamentares. Por outro lado, não escapam de algumas práticas consolidadas no Legislativo e propõem uma proporção maior do que a dos colegas de homenagens a categorias profissionais e datas comemorativas. Esses são alguns dos resultados de um raio-x do primeiro ano de atuação de 22 deputados novatos feito pelo Estado.
A radiografia leva em conta parlamentares que estão no primeiro mandato na Câmara, nunca tiveram outro cargo eletivo e pertencem a pelo menos um dos grupos: RAPS, RenovaBR, Livres, Acredito, MBL, Muitas, Ocupa Política e Vote Nelas. Em média, 42% dos projetos desses novatos são apresentados em conjunto com outros parlamentares. No resto da Câmara, essa taxa é de 16%.
O deputado Felipe Rigoni (PSB-ES), que assina mais da metade dos seus projetos com outros parlamentares – muitos deles de outros partidos –, acredita que a disposição para trabalhar em grupo é algo que o diferencia. “É entender que, independentemente de com quem você está falando, trata-se de uma pessoa legitimamente eleita pelo povo”, afirmou.
Os deputados ouvidos também apontam a coautoria como estratégia para aumentar a chance de ver uma proposta ser aprovada. “Antes de protocolar, vejo quais deputados teriam alinhamento com o tema e convido eles para serem coautores. Já partimos de um volume maior de deputados apoiando o projeto”, disse o deputado Tiago Mitraud (Novo-MG).
Para Tabata Amaral (PDT-SP), a coautoria é uma maneira de driblar a dificuldade inicial de estar no primeiro mandato. “A gente entrou sem padrinhos, sem as pessoas que te puxam, sem o aprendizado que vem com os contatos.”, afirmou.
Uma das pautas compartilhadas por deputados do grupo é justamente a elaboração de propostas que alteram o funcionamento dos partidos políticos. Rigoni, Tabata, Marcelo Calero (Cidadania – RJ), Rodrigo Coelho (PSB – SC) e Luiz Flávio Gomes (PSB – SP) assinam, junto com outros colegas, um projeto que força partidos a adotarem mecanismos de transparência e de democracia interna. A falta de participação de filiados na tomada de decisões dos partidos é apontada por especialistas como um dos fatores que contribuiu para a crise de representatividade das legendas.
“Uma questão clássica de partido político é a tendência a se oligarquizar”, disse Cláudio Couto, coordenador do mestrado em Gestão e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). “Se a ideia é renovar, um dos elementos disso é reduzir essa oligarquização dentro das legendas”. Segundo Couto, alguns desses políticos têm entrado em conflito com suas siglas por assumir posições que vão contra a orientação partidária, como Tabata e Rigoni. “Então há mais uma razão para que eles tenham esses projetos como uma prioridade.”
A presença de caciques políticos e a falta de disposição de diálogo com a juventude também são, segundo analistas, fatores que contribuem para a articulação conjunta. “A política institucional tem forte presença do poder tradicional, especialmente no que tange às questões de gênero e geracional: são preponderantemente homens e mais velhos”, afirma o cientista político Rodrigo Prando, professor do Mackenzie.
Estadão Conteúdo

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