Obra de Zé do Caixão não chega perto de sua maior história —a da própria vida

José Mojica Marins fez filmes, peças, gibis e livros. Criou personagens fantásticos e histórias que iam além, muito além do além. Mas a força e magia dessas fábulas não chegam perto da maior história de Mojica: a de sua própria vida.

Filho de um zelador de cinema/ toureiro de fim de semana e de uma dona de casa/cantora de tangos, o pequeno José transformou um galinheiro na Vila Anastácio, subúrbio proletário de São Paulo, em estúdio de cinema. Fez faroestes, dramas e filmes infantis, até revolucionar o cinema de terror com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964), filme que lançou Zé do Caixão.

Zé é um caso único na história do cinema. Um personagem que entrou para o folclore brasileiro, como o saci e a mula sem cabeça, mas que também encarnou em seu criador, José Mojica Marins, que o interpretou, dentro e fora das telas, por toda a vida.

Conheci Mojica em meados dos anos 1980, quando ele finalmente conseguiu exibir sua obra-prima “O Despertar da Besta” (1969), então presa na censura. Vi o filme e minha concepção de bom cinema mudou para sempre.

Para o inferno com o bom-gostismo e o bom-mocismo; aquilo era arte vital, um delírio psicodélico que mostrava o terror da era Médici de forma absolutamente visceral e única. Aquilo fazia “Sem Destino” parecer filme da Disney.

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Procurei Mojica e implorei para ver a filmagem de sua próxima obra. Cheguei em São Paulo, fui ao “estúdio” (uma quitinete perto da Cracolândia) e o encontrei filmando uma fita, como ele costumava dizer, de sexo explícito. Era o que lhe restava, no Brasil da Embrafilme dos anos 1980.

Nesses 35 anos, minha admiração e amor por este homem só cresceram. Mais que um ídolo, Mojica foi um norte, um artista 100% independente e autoral, um criador que não deixava nada ficar entre sua visão pessoal e a sua obra.

Tive a sorte de viajar o mundo com ele, para festivais e mostras de seus filmes. Vi Paul Schrader, roteirista de “Taxi Driver”, dizendo que nunca tinha visto nada como “O Despertar da Besta”. Vi roqueiros como Rob Zombie e Johnny Ramone praticamente se ajoelharem diante dele. Vi grandes cineastas, como Gaspar Noé e Darren Aronofsky, parecendo colegiais na frente do ídolo.

Quando pedi a Lux Interior, vocalista do grupo de rock The Cramps, uma frase para ilustrar o cartaz de uma mostra de Mojica, ele escreveu: “Coffin Joe… Sinto-me fraco e inferior em seu reino de violência”.

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André Barcinski

É co-autor, ao lado de Ivan Finotti, da biografia “Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão” (1998) e do documentário “Maldito” (2000)

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