Porta-voz de Bolsonaro fica fora de promoção à elite do Exército

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O Alto Comando do Exército promoveu na tarde desta segunda (24) dois novos generais que poderão integrar o colegiado, deixando de fora o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Ele disputava duas vagas para receber a quarta estrela no ombro com os generais-de-divisão Valério Stumpf e Tomás Ribeiro Paiva. O primeiro é chefe de gabinete do general da reserva Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e o segundo, comandante da 5ª Divisão de Exército, em Curitiba.

Ribeiro Paiva, conhecido internamente como Tomás, foi chefe de gabinete do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas e era visto como um nome certo para o Alto Comando. Já Stumpf, que é da Cavalaria, surgia como concorrente direto de Rêgo Barros, oficial da mesma arma.

Ainda há uma vaga para o topo da hierarquia militar disponível para a turma de Rêgo Barros, a de 1981, a ser preenchida na próxima reunião do Alto Comando, em novembro. São três encontros anuais, marcados antecipadamente, para completar as 16 vagas do colegiado mais importante a cúpula militar brasileira. Postos difíceis: de cada 400 aspirantes a oficiais formados, apenas 4 chegam às quatro estrelas da elite.

Tecnicamente, portanto, Rêgo Barros ainda está no páreo, mas politicamente há outras leituras possíveis sobre o tempo da escolha dos generais.

Na semana passada, houve a finalização de uma espécie de rearranjo político, para ficar no eufemismo, nas alas militares que compõem o governo do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro (PSL). O presidente rebaixou o general Floriano Peixoto para os Correios e ocupou sua vaga da Secretaria-Geral com um amigo pessoal.

Já o chefe dos Correios, general Juarez Cunha, foi para casa após ter sua demissão ser anunciada por Bolsonaro. Ele era um quatro estrelas da reserva e foi acusado de comportamento “sindicalista” pelo chefe.

Na semana retrasada, houve a demissão de Carlos Alberto dos Santos Cruz, o chefe da Secretaria de Governo que bateu de frente com o grupo influenciado pelo escritor Olavo de Carvalho no governo: os filhos de Bolsonaro Eduardo e Carlos, e os ministros da Educação e das Relações Exteriores.

O Alto Comando do Exército não digeriu o tratamento dispensado a Santos Cruz, nome dos mais respeitados entre os militares, e a Cunha, um ex-integrante do colegiado. A compensação bolada por Bolsonaro no caso da Secretaria de Governo, a indicação do general quatro estrelas Luiz Eduardo Ramos, foi vista mais como o reforço de um círculo íntimo pelo presidente —o hoje comandante militar do Sudeste é seu amigo mais próximo na ativa.

Rêgo Barros não iria para a disputa agora, mas a ida de Ramos para o governo liberou uma vaga no Alto Comando. Ele permanece sendo da ativa, mas na condição de agregado a um cargo civil. O mesmo ocorre com Stumpf, que provavelmente terá de sair do Planalto se quiser ocupar uma cadeira na cúpula.

Entre militares que observam a movimentação, a manutenção de Rêgo Barros com três estrelas neste momento foi vista como uma forma de evitar a já enorme simbiose entre a as forças da ativa e as alas militares do governo. Nada impede que ele seja promovido no fim do ano, mas neste momento de embate o recado pode ser delineado.

Esses observadores também lembram que o nome escolhido para substituir Ramos no Comando do Sudeste, que concentra as tropas de São Paulo, é o de um general que passou cinco anos como segurança pessoal da presidente Dilma Rousseff (PT).

O general Marco Antônio Amaro dos Santos comandava a Casa Militar de Dilma, que sofreu impeachment em 2016. Era figura constante em viagens e nas pedaladas da presidente pelas manhãs.

Sua indicação pode ser lida como um sinal da ativa para o Planalto de que o Exército fornece quadros para servir ao Estado, não para governantes, já que uma das tônicas de Bolsonaro é criticar quaisquer associações entre membros de sua gestão com aquelas do PT.

Folhapress