Política

Setor produtivo cobra mais diálogo com Governo do RN

Foto: Cláudio Oliveira.

A governadora Fátima Bezerra (PT) tomou posse para mais quatro anos no comando do Executivo e fez diversas promessas. Em discurso na Assembleia Legislativa, a gestora demonstrou confiança de que contará com apoio do Governo Federal para grandes projetos, incluindo a duplicação da BR-304, expansão da produção de energia eólica e produção de hidrogênio verde. Representantes do setor produtivo do estado estiveram presentes à posse da governadora e acreditam que será preciso dedicar atenção às pautas do setor, mantendo um diálogo permanente.

O presidente do sistema Fecomércio/RN, Marcelo Queiroz, relembrou que a área de comércio, serviços e turismo é a que gera cerca de 74% dos empregos, sendo responsável por 77% do ICMS recolhido no estado. Embates com o governo podem acontecer, segundo ele, mas dentro do diálogo para se chegar a um consenso.

“Teremos embates quando tiver que ter, o que é normal numa democracia. Quando ficamos contra qualquer projeto, estamos defendendo o lado do setor produtivo, dos empregos. O governo tem os motivos dele, por isso o diálogo e o debate acontecem. O setor de comércio, serviços e turismo foi o que mais sofreu durante a pandemia. Estamos nos recuperando, confiantes e otimistas que 2023 será um ano de concretizar essa recuperação”, disse.

Recentemente a Fecomércio se posicionou contrária a elevação da alíquota do ICMS em 2023, proposta pela governadora e aprovada pelos deputados estaduais. A Federação das Industrias (Fiern) foi outra entidade que também manifestou repúdio sobre a proposta.

“É uma oportunidade também de expressar nossa disposição ao diálogo respeitoso e a construção de parcerias em prol do Rio Grande do Norte, algo que sempre existiu ao longo do primeiro mandato, em todas as esferas do governo. Muitos serão os desafios da sua próxima gestão, diante das demandas sócio-econômicas de toda a sociedade, várias delas apontadas no documento construído pela Fecomércio e intitulado ‘RN em Foco’. Nele, durante a campanha eleitoral, apresentamos um compilado com sugestões para o futuro da economia potiguar, reunindo pontos prioritários para o setor terciário, que esperamos poder também nortear a política governamental nos próximos quatro anos”,  destacou o presidente da Fecomércio.

Para a nova gestão, o diretor da federação, Roberto Serquiz, também fala numa expectativa de diálogo em torno das pautas que o setor produtivo considera estratégicas para o desenvolvimento do Rio Grande do Norte. Ele relembrou que Fátima Bezerra citou, no discurso de posse, pontos que são comuns à Agenda Propositiva, documento que foi entregue pela Fiern ao Governo em 2022. Serquiz considera que isso cria a expectativa de discussões com resultados sobre algumas das propostas que foram citadas.

Outro ponto observado no discurso da governadora foi com relação ao potencial do estado na produção de energia limpa, quando Fátima Bezerra voltou a falar sobre a viabilidade da implantação do porto-industria verde, prevendo que o estado caminha  para ser a locomotiva da transição energética do país.

“Trabalharemos incansavelmente para viabilizar o porto-indústria verde garantindo ao Rio Grande do Norte papel destacado no desenvolvimento da eólica offshore, em alto-mar, e da produção, armazenamento e exportação de hidrogênio verde o que nos fará pioneiros no segmento”.

Para o futuro presidente da Fiern, é preciso que se tenha proximidade na discussão sobre estes temas, entre Governo e iniciativa privada. “O diálogo vai ser importante para qualificar os resultados ao longo deste ano que inicia. Destacamos, nesse sentido, aspectos que contemplam a Segurança, a Educação, os Recursos Hídricos. O Porto Verde que ela citou, para avançar, devem ser abordados aspectos que são basilares. O Estado está carente, por exemplo, de resoluções nas áreas de Energias Fotovoltaica e Eólica. Não temos, também, direcionamento legislativo com relação ao hidrogênio verde. São pautas que devem ser discutidas rapidamente”, pontuou o diretor da Fiern.

A expectativa é de que esse porto seja viabilizado por meio de Parceria Público Privada (PPP) para dar dar suporte a projetos de geração de energia eólica no mar (offshore) e em terra (onshore), além de entrar no mercado de produção de hidrogênio verde, considerado o combustível do futuro. Com previsão de construí-lo no litoral entre os municípios de Caiçara do Norte e São Bento do Norte, o Estado deverá buscar investimentos de R$ 6 bilhões para a implantação do empreendimento.
ALRN vai manter independência, diz Ezequiel
O deputado e presidente da Assembleia Legislativa do estado, Ezequiel Ferreira (PSDB), destacou, após a governadora Fátima Bezerra (PT) ser empossada, que a Casa manterá sua independência, mas se unirá em torno das pautas que sejam benéficas ao povo do Rio Grande do Norte.

“Quando temos matérias de interesse da população do estado, mesmo entendendo a pluralidade da casa, a independência de cada parlamentar, os parlamentares se unem na defesa maior do povo do Rio Grande do Norte. Tem sido assim e continuará sendo assim, com a Assembleia se unindo e dando as mãos em defesa desses projetos e do povo que elegeu essa bancada”, destacou.

Ezequiel caminhou como aliado da governadora Fátima Bezerra durante a campanha à reeleição de ambos no ano passado e tem espaço no governo com indicações de nomes para auxiliá-la na gestão, como o do Secretário Estadual de Segurança Pública, coronel Francisco Araújo e do Secretário Estadual de Agricultura e Pesca, Guilherme Saldanha. Ambos estão na gestão desde o primeiro mandato de Fátima.

Com a benção dela, o deputado se manteve durante os quatro anos como presidente do parlamento estadual. Sobre a continuidade à frente da Casa, ele se esquivou: “ Isso será ainda discutido internamente”.

Depois do PSDB liberar seus filiados e parlamentares para escolherem a quem seguir nas eleições, durante a campanha do ano passado, Ezequiel convocou seus apoiadores a pedirem votos para Fátima e disse que faria isso percorrendo os municípios do estado. Com a vitória da petista no estado e do correligionário dela, o presidente Lula, Ezequiel acredita que o estado terá mais chances de crescer.

“Temos as melhores expectativas de que 2023 seja ano de realizações e parcerias entre o governo do estado e o governo federal porque todos sabem do alinhamento que existe entre a governadora e o presidente da República”, justificou.

O líder da bancada governista, deputado Francisco do PT também destacou essa relação entre os dois gestores. “Apesar de todas as dificuldades, tivemos conquistas e avanços importantes e esperamos que agora, com essa conjugação do governo da professora Fátima e do governo federal com o presidente Lula, possamos conquistar muitas ações e projetos importantes”, sugere o parlamentar.

Promessas

Apesar de ter alegado nos últimos meses dificuldades financeiras e queda na arrecadação, a chefe do executivo disse que organizou as contas e que vai ampliar a capacidade de investimentos para a execução de obras, as maiores delas com o apoio do aliado, o presidente Lula.

A governadora diz que o estado voltou a ter credibilidade porque organizou as contas, mesmo ela não tendo conseguido quitar a folha do décimo terceiro salário dos servidores dentro do prazo em 2022. Inclusive, foi alegando dificuldade financeira que enviou, no apagar das luzes do primeiro mandato, um projeto que foi aprovado pelos deputados estaduais para aumentar a alíquota do ICMS de 18% para 20% a partir de abril, o que pode aumentar o preço de produtos e serviços para os consumidores.

A governadora fez referência ao presidente ao longo do discurso, externando as expectativas. É dessa relação que Fátima pretende concretizar grandes obras. “Com o apoio do Governo Federal, vamos duplicar a BR-304, entregar Barragem de Oiticica e realizar duas obras essenciais para completar o ciclo de segurança hídrica para o Rio Grande do Norte, que são o sistema adutor do Seridó e a entrega do Ramal Apodi-Mossoró, o que se traduz sem dúvida, também, em promoção do desenvolvimento”, garante a gestora.

Desde o início da sua gestão, foram repassados R$ 293 milhões pelo governo de Jair Bolsonaro para o andamento dos serviços na Barragem de Oiticica, que está 93,28% concluída, conforme a última atualização do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR). A pasta tem uma carteira de obras na ordem de R$ 3,4 bilhões para intervenções voltadas a ampliar a oferta de água no Rio Grande do Norte entre empreendimentos entregues desde 2019 e aqueles que estão contratados (em execução ou ainda não iniciados). Deste total, R$ 463 milhões foram alocados para o estado no governo Bolsonaro.

Para a construção do Ramal do Apodi o governo federal já repassou  R$ 127,4 milhões dos  R$ 1,77 bilhão da obra que levará a água que chega ao reservatório Caiçara-PB, pela transposição do rio São Francisco, até o reservatório Angicos/RN.

Já na BR 304, há um trecho em obras para duplicação, na conhecida Reta Tabajara, entre Macaíba e Parnamirim. Fátima quer levar a Lula não apenas a conclusão dessa parte, mas a duplicação de toda a rodovia que liga Natal ao Ceará, passando por Mossoró.

Tanto esta, quanto a BR 101, entraram nos estudos para privatização de estradas, portos, ferrovias e aeroportos, segundo o decreto nº 9.972, assinado pelo então presidente da República, Jair Bolsonaro, em agosto passado. As obras na duplicação da 304 passariam a ser uma contrapartida da empresa que vencesse a concessão.

Por Tribuna do Norte.

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Geral

EUA articulam acesso estratégico a Fernando de Noronha e Natal sob alegação de direito histórico e investimento bélico


Diplomatas vinculados a setores republicanos dos Estados Unidos, diretamente associados ao núcleo político do presidente Donald Trump, vêm articulando informalmente com interlocutores brasileiros o uso irrestrito do Aeroporto de Fernando de Noronha (SBFN) e da Base Aérea de Natal (BANT), no Rio Grande do Norte. O argumento empregado remete ao conceito de “direito histórico de retorno operacional”, com base em investimentos realizados pelos EUA durante a Segunda Guerra Mundial e o período da Guerra Fria.

O mesmo argumento foi recentemente utilizado em declarações sobre o Canal do Panamá, onde setores trumpistas passaram a defender publicamente que os EUA deveriam reivindicar o controle técnico-operacional da estrutura interoceânica, sob a alegação de que “foram os Estados Unidos que construíram, pagaram e defenderam a instalação durante o século XX”.

No caso brasileiro, trata-se de ativos geoestratégicos de alto valor: Fernando de Noronha como sensor-forward baseno Atlântico Sul equatorial, e Base Aérea de Natal como hub logístico de trânsito transcontinental, compatível com operações aéreas interteatrais e como base de prontidão para projeção sobre África Ocidental e litoral norte sul-americano.

Racional técnico-operacional por trás da pressão

Segundo analistas de defesa consultados pelo DefesaNet, tanto Fernando de Noronha quanto a Base Aérea de Natal oferecem vantagens operacionais tangíveis para a arquitetura C4ISR (Comando, Controle, Comunicações, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento) dos Estados Unidos, sobretudo no contexto de projeção hemisférica e contenção estratégica no Atlântico Sul.

No caso de Fernando de Noronha, sua localização equatorial posiciona o arquipélago como um ponto ideal para vigilância oceânica de longo alcance. A ilha funciona como plataforma natural para a instalação de sensores eletro-ópticos, radares de superfície marítima e equipamentos ELINT/SIGINT, voltados para o monitoramento de rotas navais e aéreas entre a América do Sul, a África Ocidental e o Atlântico médio. A proximidade com o corredor marítimo entre o Atlântico Sul e o Golfo da Guiné — hoje alvo de crescente atividade naval chinesa, russa e de embarcações de bandeira de conveniência — torna Noronha um vetor avançado de interdição e coleta de inteligência.

Além disso, o aeroporto do arquipélago possui capacidade de operar como ponto de apoio tático para aeronaves de vigilância marítima e UAVs de média altitude e longa duração, como os MQ-9 Reaper ou os SeaGuardian, permitindo cobertura persistente sobre áreas de interesse. A viabilidade técnica de integração com satélites de comunicações, bem como com redes de monitoramento oceânico baseadas em dados abertos e sinais AIS/SAR, amplia o valor estratégico da posição para operações de vigilância marítima e domínio situacional regional.

Já a Base Aérea de Natal, situada na região metropolitana de Natal (RN), possui relevância histórica consolidada. Conhecida durante a Segunda Guerra Mundial como o “Trampolim da Vitória”, a BANT foi utilizada pelas forças aliadas como ponto de trânsito logístico entre o continente americano e os teatros de operações da África e Europa. A base continua sendo uma instalação robusta, com pista de pouso capaz de receber aeronaves estratégicas como o C-17 Globemaster III, o KC-135 Stratotanker e o novo KC-46 Pegasus. Sua posição geográfica oferece acesso facilitado tanto a rotas transatlânticas quanto ao porto de Natal, o que a qualifica como um hub logístico de alto valor para operações conjuntas ou expedicionárias.

Do ponto de vista operacional, Natal apresenta condições ideais para reabastecimento em voo, evacuação médica, mobilização rápida de forças de reação e apoio a missões aerotransportadas em cenários de crise na costa ocidental africana, Caribe ou litoral norte da América do Sul. Sua proximidade com o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) também permite sinergia para operações de inteligência para o monitoramento e rastreio de vetores brasileiros que estão sendo lançados.

FAB Super Tucano A-28 com pintura Comemorativa do 1º Grupo de Aviação de Caça que combateu na Itália durante a segunda Guerra Mundial Foto SO Johnson FAB

Ambas as infraestruturas, se combinadas sob um conceito de presença avançada, permitiriam aos Estados Unidos estabelecer um arco de contenção atlântico que complementariam sua atual malha de bases e pontos de apoio, como Ilha de Ascenção, a Ilha de São Tomé e instalações em Dakar. Este cinturão de vigilância e prontidão ampliaria substancialmente a capacidade de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR) dos EUA sobre o Atlântico Sul — uma região tradicionalmente fora do alcance direto da OTAN, mas onde se observa crescente atividade de potências extrarregionais, inclusive por meio de embarcações de pesquisa, pesqueiros industriais e plataformas marítimas de duplo uso, potencialmente vinculadas a operações de coleta de dados sensíveis.

Base legal e precedentes

A fundamentação jurídico-estratégica apresentada por representantes e analistas próximos ao governo Trump para justificar o pleito sobre Fernando de Noronha e Natal repousa sobre três eixos principais — todos baseados em interpretações ampliadas da história da cooperação militar hemisférica, em dispositivos legais do aparato de segurança dos EUA e em doutrinas geopolíticas mantidas de forma contínua desde a Segunda Guerra Mundial.

O primeiro vetor é de natureza histórico-operacional. Ambas as infraestruturas foram incorporadas ao esforço de guerra dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial: A Base Aérea de Natal operou entre 1942 e 1945 como base logística sob comando direto americano, sendo uma das maiores plataformas aéreas aliadas fora do território continental dos EUA. Já Fernando de Noronha foi adaptada para servir como ponto avançado de apoio à aviação naval, com reforço da infraestrutura local por parte da Marinha dos Estados Unidos. Essa participação incluiu aportes financeiros, fornecimento de equipamentos, obras de engenharia e construção de pistas, tudo amparado pela Lend-Lease Act (Lei de Empréstimo e Arrendamento de 1941), que permitia aos EUA financiar ou construir infraestruturas militares em países aliados, sob a cláusula implícita de utilidade comum.

O segundo eixo refere-se àquilo que think tanks de defesa nos EUA vêm definindo como “direito de retorno funcional”. Embora não reconhecida no direito internacional público, essa doutrina informal vem sendo ensaiada desde os anos 1990 e ganhou força com o ressurgimento de visões neomonroeístas no entorno da administração Trump. A tese sustenta que ativos militares financiados pelos EUA em países parceiros — especialmente em contextos de ameaça global ou competição estratégica — poderiam ser “reativados” com base em acordos tácitos ou no princípio de reciprocidade hemisférica. A retórica dessa doutrina ecoa elementos da Doutrina Monroe (1823) e da Western Hemisphere Defense Zone, proclamada por Franklin D. Roosevelt em 1941 e reafirmada informalmente durante a Guerra Fria como área de interesse vital para a segurança marítima norte-americana.

O terceiro elemento mobilizado pelos EUA envolve precedentes contratuais e legislativos. O extinto Acordo de Assistência Militar Brasil-EUA (1952), embora formalmente encerrado, segue sendo frequentemente citado em documentos técnicos e análises da RAND Corporation, CSIS e Heritage Foundation como referência à “tradição de interoperabilidade hemisférica”. Já o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) de 2019, firmado no governo Bolsonaro para viabilizar o uso da Base de Alcântara, é mencionado como precedente político e diplomático que abre margem para novas modalidades de acesso militar a instalações sensíveis sob controle brasileiro.

A esse quadro somam-se ainda marcos legislativos internos dos EUA que reforçam a tese de mobilização extraterritorial. O Mutual Defense Assistance Act de 1949 — base legal para o fornecimento de apoio militar a países fora da OTAN — e o ainda vigente Defense Production Act de 1950, que autoriza o Executivo norte-americano a mobilizar meios logísticos e industriais fora do território nacional em caso de emergência, são frequentemente evocados como dispositivos que sustentariam juridicamente operações avançadas. Complementarmente, os National Defense Authorization Acts (NDAA) dos últimos anos, sobretudo os aprovados entre 2017 e 2023, incorporaram cláusulas específicas de forward basing e cooperative security locations em zonas extrarregionais, como o Atlântico Sul, autorizando o Departamento de Defesa a empregar recursos para manter presença estratégica em regiões não formalmente cobertas pela OTAN.

A interpretação que emerge desse conjunto jurídico-doutrinário é a de que, diante da intensificação da competição sino-russa no Atlântico Sul e da necessidade de resiliência logística hemisférica, os EUA estariam legitimados — ainda que sem base legal explícita no Brasil — a pleitear o uso prioritário ou irrestrito de infraestruturas que, a seus olhos, fazem parte de uma malha estratégica herdada da lógica aliada da Segunda Guerra Mundial e reforçada pela arquitetura normativa da Guerra Fria.

Defesanet 

 

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