Economia

Desvalorização de moeda chinesa tornará real ainda mais fraco, diz ex-presidente do BC

CMJQMC_WsAEPY9kA maior desvalorização da moeda chinesa em 20 anos, promovida nesta terça-feira pelo Banco do Povo (banco central do país), pegou de surpresa um mundo em crise. Para o Brasil, o momento não poderia ser menos oportuno, segundo Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-presidente do Banco Central. De acordo com o economista, o real vai perder ainda mais valor e a esperança de que as exportações poderiam aliviar a desaceleração brasileira ficará mais distante. Leia abaixo a entrevista com o especialista.

Por que a desvalorização do yuan é um evento tão importante?

Porque ela significa uma inversão na estratégia chinesa. Até então, o governo chinês caminhava para realizar a transição de um modelo de crescimento econômico baseado em exportações e investimento para um modelo sustentado em consumo interno. Para isso, a política do BC chinês era, na verdade, promover um processo gradual de valorização do yuan, de modo a refletir seus elevados níveis de superávit comercial e de reservas internacionais. Quando Pequim realiza o inverso disso, uma desvalorização de sua moeda, isso significa que o governo está proporcionando um estímulo às exportações. Há, portanto, uma interrupção na transição de modelos de crescimento e isso é muito surpreendente.

Por que o Banco do Povo (banco central chinês) tomou essa decisão?

Ela é um reflexo do processo de desaceleração da economia chinesa, que parece estar ocorrendo de forma muito mais acelerada do que o esperado pelo governo. É uma medida de curto prazo para tentar evitar que sua economia cresça abaixo dos 7%, que é sua meta oficial. O Banco do Povo afirmou que se trata de uma decisão única, que não faz parte de um processo continuado, mas é muito difícil dizer se ele vai conseguir manter a taxa nesse patamar no futuro.

Qual é o impacto sobre a economia mundial?

Tudo o que acontece na China é extremamente importante para países exportadores de commodities como o Brasil. Para a economia mundial e sobretudo para nações emergentes, é fundamental que a China obtenha sucesso em seu plano de realizar um “pouso suave” de sua economia, isto é, reduzir o crescimento de forma gradual e previsível. Isso porque, uma vez que é um fato que a China crescerá menos, é imprescindível que isso se dê sem sobressaltos. Mas a desvalorização do yuan indica que o BC de lá nutre o temor cada vez mais forte de que, em vez de um “pouso suave”, sua economia faça uma “aterrissagem forçada”. Trata-se de uma medida que mostra que a economia chinesa tem fragilidades sobre as quais talvez não estivéssemos tão a par, e isso ameaça a recuperação da economia mundial. Na verdade, o mundo precisa hoje de ter a China mantendo sua demanda pelas exportações globais. O que a China está fazendo é justamente o contrário.

E para o Brasil, o que isso representa?

Para o Brasil, é muito ruim pois representa mais um fator externo preocupante. No cenário de estresse em que nós vivemos, isso não podia acontecer em momento menos oportuno. O primeiro efeito é aumentar o viés de desvalorização do real. Esse processo havia um componente econômico, que são os déficits público e de conta corrente, e um componente político. Justamente agora que uma trégua política estava se desenhando, acontece isso! Isso tornará mais difícil para o Brasil promover os ajustes internos de que precisa.

Teremos impacto, então, em nosso Produto Interno Bruto (PIB)?

Certamente, esse acontecimento não ajudará o nosso PIB. Se tínhamos a esperança de que as exportações iriam aliviar nossa situação, isso ficará mais difícil. Apesar de, em teoria, um câmbio desvalorizado ajudar as exportações, a medida chinesa reduz a demanda, anulando esse efeito.

Por que o real tende a perder valor com a desvalorização do yuan?

As exportações brasileiras são dominadas por commodities, cujo principal destino no mundo é a China. Daí, existe uma correlação direta entre os preços desses produtos, o comportamento das exportações e a taxa de câmbio. Com o yuan mais fraco, fica mais caro para os chineses comprarem os nossos produtos, reduzindo assim a demanda por nossas exportações. Com a menor procura, o preço das commodities, que já está baixo, se mantém pressionado. A consequência lógica é que a entrada de dólares por meio da exportação de produtos ficará mais difícil, o que valoriza o dólar e deprecia o real.

Mas uma desvalorização de menos de 2% no yuan é capaz de provocar esses efeitos?

Se para nós a magnitude se assemelha à de uma minidesvalorização, para os padrões chineses isso é praticamente uma maxidesvalorização. É muito relevante para eles. Mas o mais importante não é a magnitude do movimento e, sim, a reversão brusca da tendência de valorização do yuan. Como é provável que os EUA aumentarão seus juros em setembro, o dólar ganhará mais força e o mercado vai pressionar o BC chinês por mais desvalorizações. O sinal foi dado e provavelmente as moedas de países asiáticos, como Coreia do Sul, Tailândia e Vietnã, vão ser obrigadas a se desvalorizar.

Isso seria um retorno da chamada “guerra cambial”, que vimos há poucos anos?

É preciso aguardar para saber se entraremos em uma guerra cambial de verdade. Como eu disse, é certo que países com perfil parecido com o da China, como os emergentes asiáticos, todos eles vão ser obrigados a desvalorizar suas moedas para não serem engolidos por ela. Isso pode levar mais países a fazer o mesmo para se tornarem mais competitivos, com o argumento de que o câmbio chinês está artificial, e até a uma retórica global de caráter protecionista. Só que isso é um jogo de “perde-perde”. O mundo precisa hoje de mais comércio, não de protecionismo.

O Globo

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