Casa Branca prevê mínimo de 100 mil mortos por coronavírus nos EUA

Foto: Tom Brenner/Reuters

No dia em que os Estados Unidos superaram o número de mortos na China em razão do coronavírus, a Casa Branca divulgou o modelo estatístico com que tem trabalhado e anunciou que o país precisa se preparar para ter entre 100 mil e 200 mil mortes. O presidente americano, Donald Trump, e os especialistas que orientam o governo federal pediram que os americanos se atenham às políticas de distanciamento social e disseram que as próximas duas semanas serão dramáticas.

“A pergunta é: o que aconteceria se não fizéssemos nada? O número subiria para entre 1,5 a 2,2 milhões de pessoas morrendo. Isso não seria possível, você veria pessoas morrendo nos lobbies de hotel, nos aeroportos. Isso não poderia continuar”, disse Trump.

“Estas serão duas semanas muito, muito dolorosas. Quando você olha à noite o tipo de morte que tem sido causada por esse inimigo invisível, é incrível”, disse Trump. O presidente disse que é “absolutamente crítico” que todos os americanos sigam as restrições de circulação pelos próximos 30 dias. “É uma questão de vida ou morte, francamente”, disse Trump. Ele pediu que os americanos se preparem para duas semanas “muito difíceis”.

Os gráficos mostrados pela Casa Branca mostram que em algum momento o número de mortes começa a desacelerar, mas serão registradas mortes até junho. Os dados são um modelo da Universidade de Washington, segundo os especialistas apresentaram, e levam em consideração as referências dos outros países que enfrentam o problema, como a Itália.

O número de mortos em razão do coronavírus nos Estados Unidos superou nesta terça-feira pela primeira vez o registrado oficialmente na China, onde a pandemia teve origem em janeiro. Os EUA têm 181 mil casos registrados no país e 3.606 mortes, segundo o acompanhamento da Universidade Johns Hopkins, referência no monitoramento da disseminação do vírus no país. A China contabilizou, até o momento, 3.309 mortes. Itália é o país com maior número de mortes registradas até agora, 12.428 casos. No mundo todo, 850,5 mil casos estão confirmados e 41.654 mortes.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e médico que comanda a força-tarefa da Casa Branca contra a pandemia, disse que os casos irão continuar subindo nas próximas duas semanas, o que não pode desencorajar os americanos a manter o confinamento.

“As orientações dos últimos 15 dias claramente tiveram efeito, apesar de ser difícil quantificar. Agora não é hora de tirar o pé do acelerador, mas apertar mais firme”, afirmou Fauci. Segundo ele, só o isolamento evitará novos picos. “Nós temos esses números, mas não quer dizer que os aceitamos. O modelo é atualizado todos os dias. Faremos tudo o que puder para conseguir reduzir o número”, disse Fauci. “Todo cidadão está sendo chamado a fazer sacrifícios”, disse Trump.

A médica Deborah Birx, da força tarefa da Casa Branca, disse que não há “receita mágica” para combater o vírus. “Cada um dos nossos comportamentos se transforma em algo que muda o rumo dessa pandemia”, afirmou.

Segundo a médica, o trabalho é para controlar os picos já registrados, como a situação de Nova York, e evitar que outras regiões se tornem epicentro da disseminação, através dos métodos de distanciamento social.

No último dia 16, a Casa Branca começou a campanha intitulada “15 dias para desacelerar a disseminação”, que incluía políticas federais de distanciamento social. Cada um dos Estados afetados já vinha delimitando suas próprias diretrizes, mais duras do que as da Casa Branca. Restaurantes e comércio não essencial já estavam fechados na Califórnia, Nova York e Washington. No domingo, Trump anunciou que estenderia até o final de abril as políticas de distanciamento. As diretrizes agora são chamadas “30 dias para diminuir a disseminação”.

Nesta terça-feira, Trump voltou a se mostrar impressionado com imagens de trailers buscando corpos de mortos nos hospitais. No domingo, Trump se mostrou especialmente preocupado com a situação quando disse que um amigo está internado pelo vírus e disse ter assistido cenas dos mortos em hospitais no Queens, em Nova York, bairro onde ele cresceu.

O epicentro da disseminação do vírus nos EUA é o Estado de Nova York, que concentra quase metade de todos os casos no país. Só a cidade de Nova York registrou 932 mortes. A cidade tem recebido reforço federal para expansão da sua capacidade hospitalar, diante dos alertas da comunidade médica e autoridades locais de que não haverá leitos e ventiladores suficientes para garantir o tratamento dos infectados se o número continuar a crescer no ritmo atual.

Um navio-hospital das Forças Armadas, o UNSN Comfort, foi enviado à Nova York para atender os casos urgentes que não forem relacionados ao vírus. A embarcação tem capacidade para 750 leitos e conta com 1,2 pessoas trabalhando, entre marinheiros e equipe médica.

O Central Park, parque que fica no coração de Manhattan, também será usado para tratar os moradores da cidade que precisarem de atendimento durante a pandemia. Um hospital de campanha começou a ser montado em tendas no gramado principal do parque para atender pacientes infectados pelo coronavírus e ampliar a capacidade do hospital Mount Sinai.

O primeiro caso de coronavírus no país foi confirmado em 20 de janeiro e a primeira morte em consequência das complicações do vírus aconteceu cerca de um mês depois. Só em março a maior parte dos Estados passou a adotar medidas mais drásticas para conscientizar a população e estabelecer diretrizes de distanciamento social. As orientações federais aconteceram a partir de 16 de março, depois de o presidente Trump ter minimizado a gravidade da pandemia nos primeiros meses do ano.

Atualmente, três em cada quatro americanos vive em locais onde há determinação para que permaneçam em casa e saiam só para atividades essenciais, como ir ao mercado e ao hospital, se necessário. É o caso da capital americana, por exemplo. O Distrito de Columbia, assim como os Estados de Maryland e Virgínia, editaram uma determinação nesta segunda-feira de que moradores que desrespeitarem as restrições de circulação impostas podem ser apenados. No caso de Washington, a multa para quem descumprir o estabelecido pela prefeitura é de até US$ 5 mil dólares e até 90 dias de prisão.

Estadão Conteúdo