Catedral de Notre-Dame abriga obras centenárias; extensão do dano é desconhecida

Quadros, esculturas e artefatos históricos, alguns com mais de 400 anos, podem ter sido danificados pelo incêndio que atingiu a catedral de Notre-Dame, em Paris, nesta segunda-feira (15).

Bombeiros ainda combatem as chamas na Île de la Cité, uma pequena ilha no centro de Paris banhada pelo rio Sena.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, disse que algumas das muitas obras de arte que estavam no local foram retiradas e colocadas em um local seguro. No entanto, ainda não é possível ter uma dimensão dos eventuais danos.

Coroas de espinhos feitas de junco e ouro, e uma única usada por São Luís, um rei francês do século 13, foram salvas, afirmou o Monsenhor Patrick Chauvet. Porém, os bombeiros tiveram dificuldades de remover alguns dos quadros maiores a tempo, disse.

O prédio, cuja construção começou em 1163, abriga um amplo acervo. Para o crítico de arte e historiador Fábio Magalhães, a importância do conjunto das obras está justamente ligada a sua preservação através dos séculos.

“Notre-Dame sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, não foi bombardeada, ao contrário do que ocorreu com a catedral de Colônia e de Dresden [ambas na Alemanha]”, diz.

Dezesseis esculturas que ornavam a parte externa foram retiradas na última sexta (12) para trabalhos de restauração —foram, portanto, poupadas do incêndio.

Um dos sinos da catedral, chamado de Emmanuel, data de 1681 e pesa mais de 13 toneladas.

Em 2012, todos os sinos foram trocados, exceto Emmanuel, que segue instalado na torre sul. Eles foram derretidos e substituídos por novos, capazes de reproduzir mais fielmente os sons originais do século 17, além de serem mais afinados.

O fogo desta segunda teria começado nas torres, onde ficam os sinos.

A catedral também abriga várias pinturas desse século, entre elas “São Tomás de Aquino, Fonte de Sabedoria” (1648), de Antoine Nicolas.

O filósofo —que viveu entre 1225 e 1274— ensinava teologia na Universidade Sorbonne, em Paris, e escreveu parte de sua obra no convento de Saint-Jacques (que fica no 13º arrondissement, como são chamados os bairros da cidade).

Historiadores acreditam que ele frequentou a catedral à época de sua construção.

Os “Mays de Notre-Dame”, que também compõem o acervo, são um conjunto de cerca de 73 quadros que foram presenteados à catedral pelos ourives parisienses.

Durante séculos, os profissionais faziam uma doação por ano à igreja, sempre no 1º de maio. A tradição se iniciou em 1449, mas a partir de 1630 os presentes passaram a ser grandes pinturas —chegavam a ter mais de quatro metros de altura.

Muitas delas se perderam durante a Revolução Francesa e outras foram transferidas para museus, como o Louvre. Restam cerca de 50 quadros, dos quais treze estão expostos na catedral.

Os mais antigos, “A descida do Espírito Santo”, de Jacques Blanchard, e “São Pedro curando os doentes com sua sombra”, de Laurent de la Hyre, datam de 1934 e 1935, respectivamente.

“Há muita documentação disponível e tecnologia que permitem restaurar as obras [eventualmente perdidas]”, diz Magalhães. Ele ressalta, no entanto, que provavelmente seriam feitas réplicas, mesmo que bastante fiéis às originais.

A catedral também é conhecida por seus vitrais coloridos, notadamente a Rosa Sul e a Rosa Norte, construídas por volta de 1260 e 1250, respectivamente.

A Rosa Sul, por exemplo, é composta de 84 painéis divididos em quatro círculos. Eles representam em riqueza de detalhes os 12 apóstolos, além de mártires e santos geralmente venerados pelos franceses, como São Mateus.

“Os vitrais da catedral são de vários períodos diferentes”, explica Magalhães. Ao longo dos séculos, eles foram restaurados e modificados diversas vezes, perdendo-se assim seu desenho original.

Naturalmente frágeis e vulneráveis ao calor, é grande a probabilidade de terem sido danificados no incêndio.

Folhapress