Em procedimento raro, médicos do DF operam bebê durante o parto

Foto: Divulgação

Recém-nascido tinha uma má-formação grave no pulmão que o impediria de respirar ao nascer. Equipe de 15 médicos fez cirurgia em 20 minutos. Foi um intenso planejamento para salvar uma vida que acabava de chegar ao mundo. No último dia 17 de fevereiro, uma equipe médica de Brasília, com 15 especialistas, realizou um procedimento raro para salvar um bebê na hora do parto.

O recém-nascido tinha uma má-formação grave no pulmão direito, que o impediria de respirar ao ser retirado do útero. Para garantir que ele sobrevivesse, foi feita uma cirurgia conhecida como EXIT (Terapia Intraparto Fora do Útero), quando parte do corpo do bebê ainda está no útero da mãe e ele segue ligado pelo cordão umbilical à genitora.

O procedimento foi realizado no Hospital Brasília e deveria ser concluído em até uma hora, para evitar risco de morte ao bebê. A equipe de especialistas conseguiu realizar a cirurgia no recém-nascido em 20 minutos, e o parto, uma cesárea, durou quase quatro horas. O recém-nascido ficou 10 dias internado, dois dias na reabilitação e já recebeu alta. O bebê e a mãe estão em casa e passam bem.

Lívia Gardênia, a mãe do bebê, lembra que, no início da gestação, queria um parto natural. “Descobrimos o cisto com 26 semanas de gestação, em uma ecografia de rotina. Não foi muito alarmante pois se tratava de um cisto bem pequeno e o pulmão ainda estaria em formação, ele poderia desaparecer. Continuamos fazendo as ecografias e acompanhando, mas não sumiu e só aumentou”, diz.

Ela conta que ficou assustada com o cisto que impediria a respiração do seu bebê. “Gostaríamos que estivesse tudo perfeito. O que aliviava é que descobrimos o problema com antecedência e algo poderia ser feito para salvar a vida do meu filho”, explica. Os médicos esperaram o máximo possível para fazer o procedimento.

A cirurgia passou a ser organizada pelo cirurgião pediatra Wallace Acioli a partir da 34ª semana. Em acompanhamentos semanais com a mãe, foi definido o dia exato para a operação. “Ela não poderia entrar em trabalho de parto, a criança tinha que estar a termo e, ao mesmo tempo, o cisto não poderia crescer até pressionar o pulmão e o coração.”

Enquanto isso, a equipe que faria o procedimento foi sendo definida com cirurgiões pediatras, cardiopediatras, anestesistas, intensivistas, obstetras e um radiologista. Na verdade, eram praticamente duas equipes: uma para cuidar da mãe e outra para o bebê.

Parto

Para fazer o procedimento, os médicos realizaram a primeira etapa de um parto cesariana, retirando parte do corpo do bebê do útero, mas não cortaram o cordão umbilical. Com o corpo ainda ligado à mãe, de maneira a garantir a circulação fetal e a oxigenação do sangue pela conexão com a placenta, o cisto foi retirado e, quando o o bebê tinha capacidade para respirar sozinho, o cordão umbilical foi cortado. Mãe e filho ficaram anestesiados durante a cirurgia.

“É um procedimento raro, e a principal dificuldade é conseguir congregar tantos profissionais especializados, além de manter o neném sem respirar”, conta Acioli. “Para manter a circulação fetal, o bebê não pode chorar. Ele recebe a anestesia em parte pela circulação da mãe, em parte por outro anestesista. Apenas o tronco fica fora do útero durante a cirurgia”, explica.

Ele diz que o EXIT é recomendado nas situações em que o paciente não consegue respirar sozinho ao nascer. Nesse caso específico, Acioli conta que a massa pulmonar a ser retirada era grande, o que tornou o procedimento mais complicado. “Durante a cirurgia, o desafio é controlar o estresse e garantir a precisão. Quando acaba e dá tudo certo, com a mãe e a criança bem, a sensação de alívio é muito boa”, completa.

Metrópoles