
O Leitor e amigo Jean-Paul Prates, envia para o blog link do post que escreveu sobre a situação de ABC e América no atual campeonato Brasileiro. JP com grande conhecimento de causa mostra em poucas linhas uma dura realidade, vale a penas a leitura. Segue
É decepcionante ver as torcidas de ABC e América se digladiando verbalmente pelas redes sociais quanto a goleadas sofridas nesta última rodada da Série B, ambas com 4 gols marcados pelos respectivos adversários. Trata-se do retrato mais perfeito da rivalidade destrutiva: aquela do “roto” contra o “esfarrapado”, aquela do “sou ruim mas você é pior”.
É triste constatar, também, que esta é a postura em muitos outros aspectos da vida política e empresarial potiguar. Há inclusive uma frase famosa, atribuída ao jornalista Cassiano Arruda Câmara, que reza que “o natalense gasta 200 para o outro não ganhar 20″ (mais a respeito, no excelente post de Cefas Carvalho).
Quando participei da preparação das credenciais natalenses para sediar a Copa, juro que acreditei que, a partir desta importante conquista, o RN conseguiria captar e gerir investimentos para que seus clubes crescessem e se consolidassem no cenário nacional. É certo que os números locais não inspiram muito. O maior público do Clássico Rei ainda foi no campeonato estadual de 1976, no estádio então ainda chamado de Castelão, com 50.486 pagantes. De lá pra cá, entre crises e falta de estádios, e mesmo apesar de algumas incursões pela série A, o público do Clássico Rei jamais conseguiu superar este “recorde”.
Mas este ano deveria ser considerado um ano especial pelos clubes potiguares, com um contexto jamais vivido por eles: ambos disputando a mesma divisão do campeonato nacional num ano em que, devido à presença do Palmeiras, a Segundona tem um destaque especial nos principais noticiários esportivos do País. Além disso, os dois clubes estariam às vésperas de ser os dois grandes anfitriões do futebol potiguar na Copa do Mundo de 2014, que tem Natal como uma das suas sedes.
Santa Catarina não terá a Copa (Florianopolis foi eliminada exatamente contra Natal). Mas é visível que seus clubes fizeram um intenso trabalho, juntando federação, empresas, governos locais e os clubes. Resultado: tem 4 times catarinenses na Segundona (Chapecoense, Joinville, Figueirense e Avaí), sendo que os três primeiros estão no G4/2. E o Criciúma, que migrou para o primeiro escalão sendo vice-campeão da B no ano passado e lutará como Tigre para se manter na A para o ano da Copa. Mesmo na remota hipótese de que caia, teríamos em 2014 cinco clubes catarinenses praticamente fazendo um campeonato à parte, na Série B de 2014. Sem Copa, sem Arena, mas com planejamento e integração.
Na véspera, no ano e um ano depois da Copa em Natal, ABC e AFC deveriam ser máquinas de fazer dinheiro. Será que os clubes se prepararam mesmo para este período mágico e inédito? Será que se deram conta e planejaram direito o que fazer numa circunstância tão especial? A perspectiva de ser uma sede de copa com seus dois principais times na Série C (!) do Campeonato Nacional não incomoda estas pessoas?
Alguma coisa, misto de problema sério de gestão e transparência nos clubes combinado com falta de mobilização integrada de quem gere a Copa com a Federação, prejudica o êxito dos valorosos clubes potiguares. Os amigos jornalistas e boleiros do RN, que estão mais por dentro do dia-a-dia do assunto podem esclarecer. Mas é imprescindível perguntarmos: é incompetência, individualismo, ingenuidade ou inépcia dos dirigentes não aproveitar a Copa? Já não teremos a prometida mobilidade urbana. Será que sequer nossos clubes se beneficiarão desta realização inédita?
Modus in rebus, Santa Catarina bem poderia ser o RN do Sul: turística, cheia de imigrantes, espremida geografica e culturalmente entre dois “monstros” econômicos e futebolisticos (Rio Grande do Sul e Paraná), até pouco tempo tinha a mesma dificuldade de atrair público e patrocinadores. Clubes locais não conseguiam sequer competir com os times do RS, SP ou RJ na atenção dos torcedores locais. Mas alguém soube fazer o trabalho, tanto de planejamento financeiro, técnico e estratégico quanto de interiorização e integração entre os clubes. Seria um exemplo a investigar melhor?
A meu modesto ver, em todo o Brasil e no mundo, enquanto os clubes de futebol foram administrados como feudos privados ou trampolins políticos, só frustraram seus torcedores (afora alguns efêmeros e descartáveis êxitos).
No RN, no entanto, parece que ultimamente nem para a política os clubes de futebol têm servido. A maior parte dos políticos não gosta de “causas perdidas”. Só vão em causas ganhas, em bolas certas. Aparecer em dia de final quando o time está bem é fácil! Talvez gostássemos de vê-los se mobilizarem AGORA, para salvar ABC e AFC da Série C, em pleno ano em que sediaremos a Copa. Aliás, sou dos últimos a defender que apenas políticos se mobilizem quanto ao futebol.
O empresariado local, cada um contribuindo com um pouquinho, também poderia ajudar, e muito. Mas parece que aqui também há falhas e desigualdades desestimulantes: os dois clubes aparentemente têm marcas e empresas associadas ao seu patrocínio. Será que são cotas desajustadas demais? Será que a gestão disso está correta? Como pode não terem elencos de qualidade a ponto de estarem hoje no Z4/2 com risco alto de rebaixamento para a Série C?
Já há empresas locais (e até marcas nacionais) que patrocinam os times potiguares. Elas têm retorno? Estão satisfeitas? Se sim, outras deveriam seguí-las. Se não, então algo está muito errado e é necessário que elas imponham novos modelos de gestão aos veículos que remuneram: os clubes. No futebol atual do mundo e do Brasil, goste-se ou não, é o dono da grana (quem viabiliza o clube) quem manda!
A era dos heróis acabou!
Infelizmente temos uma grande maioria de torcedores de televisão que torcem por times de fora, inclusive na imprensa desportiva local.
Nesse aspecto já tive o desprazer de assistir um jogo do time local, com um sujeito ao lado que se dizia Conselheiro do Clube, vestido com a camisa do Vasco da Gama.
Por outro grandes empresas locais, como o Grupo Guararapes que sempre se beneficiou de incetivos fiscais, sequer aceita receber uma proposta dos nossos clubes.
O texto começa bem, mas depois passa a se fundamentar numa hipótese não explicada de que a Copa deveria render frutos aos clubes. Por que? Como? Não explica.
Oi, Pedro. Obrigado por ler e comentar.
O artigo nasceu despretenciosamente da simples reflexão e perplexidade sobre a total desconexão do futebol potiguar e dos que o fazem no dia-a-dia com a Copa. Não tenho todos os elementos para dar uma receita pronta, mas tentei jogar algumas perguntas e exemplos para guiar um debate mais aberto a respeito. Algumas medidas imediatas seriam, por exemplo, diagnosticar o grau de satisfação dos atuais patrocinadores e, conforme o caso, reorganizar os formatos e cotas de patrocínio; efetivar mais transparência nas contas, gastos e decisões financeiras; buscar uma integração comercial maior entre os clubes. A partir desta base mínima, criar iniciativas conjuntas como anfitriões da Copa, no futebol. Com a Federação,, procurar os exemplos de sucesso no Brasil e no mundo para fazer da rivalidade e da interiorização um atrativo construtivo para o futebol local, e não ao contrário.
Como menciono no artigo, há que se ter a participação de quem vive ABC e AFC todos os dias. Inclusive os "heróis"! Apenas não se pode esperar mais apenas deles as soluções para competir na moderna "indústria do futebol".