A fila para um procedimento cirúrgico na prefeitura pode demorar anos, mas nem todos enfrentam os obstáculos do serviço público. Um morador de São Gonçalo, de 70 anos, conseguiu agendar sua consulta pré-operatória de catarata, já no hospital particular conveniado onde seria operado, para apenas 12 dias depois. O pedido para incluir o paciente chegou por e-mail para uma funcionária do Sistema de Regulação de Vagas de Consultas e Cirurgias (Sisreg) em 8 de junho. E o processo foi a jato: a solicitação e a aprovação da consulta saíram no mesmo dia. Também chama a atenção o fato de o idoso sequer morar na cidade do Rio. Na ficha do paciente, Sonia Capellão, funcionária do Ministério da Saúde que atua como supervisora da central de regulação na Secretaria municipal de Saúde, aparece como a médica solicitante. A norma diz, no entanto, que os procedimentos devem ser pedidos por um médico de uma unidade de atenção básica.
A reportagem teve acesso a uma troca de e-mails entre um homem, que se identifica como colaborador do hospital particular onde o paciente seria operado, e uma funcionária da regulação da prefeitura. “Você poderia ver a possibilidade de incluir esse paciente. Não sei se ele está listado no Sisreg”, pede o homem. Alguns dias depois, chega uma resposta do e-mail da regulação ambulatorial, avisando a data da consulta pré-operatória do morador de São Gonçalo.
O caso atípico desse paciente, revelado inicialmente pelo RJ-TV, da TV Globo, vem à tona num momento em que a fila da saúde está na berlinda. O Ministério Público estadual informou que já instaurou três procedimentos: dois inquéritos e um processo administrativo para apurar eventuais irregularidades no Sisreg. A Defensoria Pública disse que “acompanha a situação de saúde do município”.
À TV Globo, um ex-funcionário da prefeitura revelou que um grupo de servidores do Sisreg era responsável por furar a fila de espera dentro da própria Secretaria municipal de Saúde. Segundo ele, que atuou por dez anos no município e pediu anonimato, pacientes indicados pela prefeitura tinham prioridade. Ele contou que chegavam pedidos de vereadores e até do secretário. Havia até um grupo de WhatsApp para tratar das indicações, do qual participavam pessoas ligadas à subsecretaria de Saúde, Claudia Lunardi.
Esse ex-funcionário explicou que ficou mais fácil beneficiar pacientes fora da fila após uma mudança de procedimento ocorrida em dezembro de 2017. Desde então, segundo ele, a autorização para consultas, exames e procedimentos oftalmológicos saíram das mãos dos médicos das unidades básicas e passaram para três funcionários a Central de Regulação Ambulatorial. Ontem, por telefone, a secretaria informou às clínicas e aos centros de saúde que as consultas para exames oftalmológicos gerais voltariam a ser agendadas pelos médicos.
O GLOBO

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