Wanessa Camargo, Sandy e a herança maldita das insossas

Tony Gois para o F5 Estadão:

São duas princesas brasileiras. Nascidas na mais alta nobreza sertaneja, ambas são bonitas e talentosas. Mesmo assim, lutam contra o peso do próprio berço. Querem que as aceitemos por si mesmas. Mas como, se nem elas sabem direito o que querem ser?

Sandy é uma superstar desde os 6 anos de idade. Cresceu em frente às câmeras e jamais teve uma vida comparável à das outras garotas. Fez muito sucesso cantando musiquinhas caretérrimas. Hiper-protegida pela família durante a adolescência, hoje se esforça para apagar a imagem de virgem. Aos vinte e oito anos de idade. E três de casada.

Sua carreira solo ainda não se firmou. O primeiro CD sem o irmão Junior, “Manuscrito”, até que vendeu bem, ainda mais nesses tempos de vacas magras discográficas. Mas nem de longe arranha o sucesso de uma Paula Fernandes – ironicamente, a nova rainha do sertanejo, gênero de que Sandy já disse muitas vezes não gostar.

Inclusive na recente entrevista à “Playboy”. Mas música é um assunto secundário ali: como quase sempre, a revista só quer saber de sexo. Da primeira à última pergunta, as entrevistadoras tentam arrancar uma confissão bombástica da moça.

Mas não conseguem. Nem mesmo quando trazem à baila o sexo anal (claro que não foi Sandy quem tocou no assunto). Quem leu a resposta toda sabe que ela não declara ser fã do esporte. Tenta se sair da maneira mais diplomática possível: não condena nem endossa. Não adiantou nada: a “Playboy” jogou um fragmento de sua fala na capa, e provocou uma comoção nacional.

Foi aí que a filha de Xororó perdeu a chance de virar o jogo. Devia ter dito que sim, adora fazer anal, que seu marido sabe como excitá-la – “o de vocês não sabe?” Ia quebrar de vez a aura de santinha e assumir um novo papel: se não o de devassa, pelo menos o de uma mulher adulta que não deve satisfações a ninguém.

Mas ela, seus parentes, seus assessores, todos correram para explicar que não era bem isto. E assim voltaram à estaca zero. Apesar da campanha da cerveja, apesar da entrevista à “Playboy”, Sandy continua passando a imagem de boa moça de família. E é claro que é isto mesmo o que ela é.

O caso de Wanessa é mais simples. A filha de Zezé di Camargo não foi estrelinha infantil. Começou a carreira há uns dez anos e emplacou alguns hits, mas nunca estourou para valer. Também recusou a herança sertaneja: aventurou-se no pop facinho e agora quer ser diva da dance music.

Mais especificamente, da vertente gay desse estilo. Wanessa descobriu um nicho e vem investindo nele com tudo, fazendo shows país afora em boates de rapazes. Também lançou um disco inteirinho em inglês, “DNA”, muito bem produzido – e totalmente genérico. Wanessa soa como qualquer uma. O repertório até que é bom, mas falta personalidade e inovação. É forte candidato à lista dos melhores do ano. De 2005

E assim seguem nossas princesas: simpáticas, batalhadoras, ricas e famosas. Mas elas querem mais. Querem durar. Quem não quer?