‘Não se teme uma Lei de Abuso, mas o abuso na criação da lei’, dizem chefes da procuradoria

O Conselho Nacional de Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG) se manifestou contrário à Lei de Abuso e indicou que há inconstitucionalidades no texto e na maneira como o projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados nesta quarta, 14. Em nota pública, a associação diz esperar que a lei seja vetada pelo presidente Jair Bolsonaro e afirma: “Não se teme uma ‘Lei de Abuso de Autoridade’, mas o abuso na criação da referida lei”.

Diferentes entidades de juízes, delegados e procuradores tem se posicionado contra aspectos do projeto que define o crime de abuso de autoridade e sua votação na Câmara, em regime de urgência e votação simbólica.

Para o Conselho de Procuradores-Gerais, o PL 7.596/2017, cria obstáculos à ‘legítima atuação do Ministério Público brasileiro no combate à criminalidade organizada e à corrupção’ e fragiliza o sistema sistema de justiça brasileiro, uma vez que acarreta intimidação aos agentes agentes de combate à corrupção.

Segundo o Conselho, no projeto de lei de abuso há tipos penais genéricos e imprecisos, o que violaria o princípio da taxatividade. Segundo tal preceito, os tipos penais devem ser claros e compreensíveis, permitindo que o cidadão entenda plenamente a conduta punível pelo Estado.

A associação avalia que o alcance do projeto de Lei de Abuso é indefinido e assim pode servir de ‘campo fértil para arbitrariedades’. “Em verdade, a incompletude da lei penal, como aprovada, é matéria-prima para abusos interpretativos”, afirmam os procuradores-gerais.

A associação diz ainda que as propostas de crimes descritos no projeto descrevem condutas que são consideradas infrações na legislação.

Com relação ao processo de votação do projeto, o CNPG afirma que o curso da aprovação omitiu ‘debate para amadurecimento das propostas’. O projeto de Lei de Abuso de Autoridade foi aprovado na Casa Legislativa em regime de urgência e em votação simbólica. Para a associação, ‘o atropelo ao devido processo legislativo configurou inconstitucionalidade formal’.

Confira a nota na íntegra
“O Conselho Nacional de Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG) vem manifestar sua preocupação com a aprovação, na Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei de Abuso de Autoridade, PL nº 7.596/2017, em razão dos obstáculos criados à legítima atuação do Ministério Público brasileiro no combate à criminalidade organizada e à corrupção.

O Projeto de Lei de Abuso de Autoridade enseja surpresa não apenas aos operadores do Direito, mas à sociedade em geral, pois o curso da aprovação omitiu o necessário debate para o amadurecimento das propostas, de modo que o regime de urgência preteriu a discussão satisfatória.

É preciso reconhecer a fragilidade causada no sistema de justiça brasileiro, uma vez que, sob pretexto de reprimir o abuso de autoridade, o PL acarreta intimidação aos agentes de combate à corrupção, tornando-os vulneráveis a penalizações pelo exercício legítimo de suas atribuições.

Não se teme uma “Lei de Abuso de Autoridade”, mas o abuso na criação da referida lei. Questiona-se, efetivamente, o resultado dessa “atualização”, que acabou resultando em tipos penais que claramente violam a Constituição Federal e compromissos internacionais de Direitos Humanos. A gravidade é evidente.

O princípio da taxatividade, ou da determinação, é dirigido diretamente à pessoa do legislador, exigindo indispensável clareza dos tipos penais para que se afaste qualquer margem de dúvida, de modo a permitir à população em geral o pleno entendimento do tipo criado. Tal princípio é um desdobramento lógico do princípio da legalidade, viga mestra do garantismo, modelo de direito que repudia os extremos: a hipertrofia da punição e a proteção deficiente.

Sobram tipos penais genéricos e imprecisos no projeto de lei em voga, o que viola o princípio da taxatividade. Em verdade, a incompletude da lei penal, como aprovada, é matéria-prima para abusos interpretativos, retrocedendo em termos técnicos por autorizar a subsunção ao tipo de condutas que, no mais das vezes, destoam da realidade que se busca coibir. O alcance do PL é indefinido e construir tipo criminal nestes termos é servir de campo fértil para arbitrariedades.

A proposta normativa tenta regulamentar situações já abarcadas pelo Código Penal e, valendo-se de expressões marcadas por indisfarçável controvérsia, criminaliza, por abuso de autoridade, o agente que começar processo penal, civil ou administrativo “sem justa causa fundamentada”.

O PL cria obstáculos à legítima atuação do Ministério Público no combate à criminalidade organizada e à corrupção. As propostas de criminalização, por falta de um debate mais cuidadoso, descrevem condutas que já se tratam de infrações penais previstas pela nossa legislação, algumas, inclusive, punidas mais severamente.

Nesse sentido, em postura de constante defesa da eficiência de execução de suas atribuições, o Ministério Público brasileiro expressa, com firmeza, seu posicionamento contrário ao PL nº 7.596/17. Registra-se que o atropelo ao devido processo legislativo configurou inconstitucionalidade formal, e a violação à taxatividade, inconstitucionalidade material.

Pautado na desejável estabilidade que a legislação pátria deve proporcionar, o Conselho Nacional de Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG) espera que o mencionado projeto de lei receba o necessário veto presidencial.”

Estadão Conteúdo

OPINIÃO DOS LEITORES:
  1. Franco disse:

    Conversa pra boi dormir. Juizes e Promotores pensam que são Deuses e não querem dar satisfações do que fazem a ninguém. E hoje nem mais respeitam a lei e ignoram a Constituição. Fazem o que bem querem e até humilham os advogados e as partes sem que tenha corregedoria ou CNJ que dê jeito e importância.
    Cadê as espetaculares operações com mega cobertura da imprensa?
    E as prisões preventivas, acabaram?
    Não tem mais Conduções Coercitivas, Vazamentos, audiências e julgamento transmitidos ao vivo?
    O espetáculo tinha um objetivo: Tomar o poder político e entregar pra um grupo de milicianos.
    Proteger os Tucanos foi outro grande propósito cumprido a risca. Aécio e seus muitos desmandos criminosos foram esquecidos, assim como o ouro e cocaína encontrados em lugares suspeitos, o Queiroz ninguém sabe onde está….

    • Francisco disse:

      Não de faça de doido, Palocci contou tudo. Ele mais do que ninguém sabia das maracutaias, foi comparsa íntimo do governo luladrão/dilmanta. Agora, o ômi que tem coragem tá no ministério da justiça, mas deixa ele ser presidente do Brasil, bandidos não aguentarão.

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