Subida de Blairo Maggi para o Ministério é complicada

O Globo:

Troféu “Motosserra de Ouro”, conferido pelo Greenpeace, e empresário biliardário que comanda um império com empresas de navegação, fazendas, portos, empresas de produção e exportação de soja, indústria de óleo e a construção de uma cidade inteira – a moderna Sapezal, encravada na Amazônia -, o senador Blairo Maggi (PR-MT) era nesta quinta-feira quase uma unanimidade no Senado: se ele assumir o Ministério dos Transportes , no dia seguinte cria-se no Congresso uma CPI para apurar sua ligação com o apadrinhado Luiz Antonio Pagot, afastado do Dnit por denúncias de corrupção e esquema de pagamento de propinas.

A aposta, de aliados à oposição, é que a maior dificuldade de Blairo para ser ministro é seu telhado de vidro, além de escândalos acumulados nos dois mandatos como governador de Mato Grosso, primeiro pelo PPS, depois pelo PR.

– Na hora em que o Blairo sentar no ministério, haverá pressão para uma CPI para apurar os malfeitos de seu homem de confiança. Ele não conseguirá separar a gestão do Pagot das coisas que aconteceram em Mato Grosso. E, se aceitar se expor, vai afetar seus negócios. O Maggi é um homem extremamente frio e pragmático – avaliou um senador governista.

Único filho de uma família de pioneiros gaúchos que foi desbravar Mato Grosso, Blairo ganhou seu nome de uma dupla sertaneja. Em 2002, resolveu entrar para a política para pagar promessa a Nossa Senhora Aparecida. Foi governador duas vezes, aliado de primeira hora do presidente Lula – a ponto de colocar seu nome na porta de uma suíte na sede de uma das fazendas – e cabo eleitoral imbatível de Dilma Rousseff no ano passado. Na prestação de contas da campanha da presidente, o Grupo Amaggi aparece como um dos maiores doadores.

No governo Dilma, Blairo vinha mantendo um bom espaço na Esplanada, herdado do governo Lula. Além de Luiz Pagot, tinha um aliado no cobiçado cargo de secretário-geral do Ministério das Cidades, Rodrigo Figueiredo. Perdeu os dois e não se conforma. Por isso as queixas dos últimos dias.

O escândalo mais rumoroso de sua gestão como governador explodiu no fim do seu segundo mandato e ameaçou sua campanha ao Senado. O caso, investigado pelo Ministério Público Federal, foi batizado de “escândalo das máquinas”. Segundo as investigações, houve superfaturamento de R$ 44 milhões na compra de 705 máquinas e equipamentos para recuperação de asfalto e estradas, no valor de R$ 241 milhões, por meio de licitações fraudulentas. Na época, Maggi disse que chorou ao saber das fraudes e afastou servidores e o secretário de Infraestrutura, Vilceu Marchetti.

Presidindo atualmente uma subcomissão de acompanhamento das obras da Copa no Senado, Blairo comanda um verdadeiro império econômico no Norte e Centro-Oeste do país. Herdado do pai, o Grupo Amaggi produz cerca de 8% da soja brasileira, com faturamento de mais de R$ 2 bilhões por ano. Em 2003, ao assumir o primeiro mandato, deu uma declaração polêmica ao “The New York Times”: “Um aumento de 40% no desmatamento da Amazônia não significa nada. Não sinto a menor culpa pelo que estamos fazendo aqui”.

No início da gestão de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente, o desmatamento da Amazônia estava descontrolado, atingindo os mais altos índices na última década. Mato Grosso comandava a derrubada da floresta. Com a divulgação dos dados, a opinião pública vilanizou Blairo, então governador, chamado o “rei da soja”. Em uma das Conferências da ONU sobre Mudanças Climáticas, em 2005, o Greenpeace deu a ele o prêmio “Motosserra de Ouro”.

No entanto, um dos braços direitos de Marina na época lembrava nesta quinta-feira que Blairo procurou o ministério e se prontificou a participar de uma estratégia contra o desmatamento. Foi um dos principais articuladores da moratória da soja, ação que mais deu resultado na queda do desmate. Mas, quando deixou o governo, Marina disse que sofria pressões de Blairo para rever as medidas de combate ao desmatamento na Amazônia.