Após sofrer AVC, executivo brasileiro não consegue parar de doar dinheiro

Ele chefiou durante muitos anos o departamento de pessoal de uma grande cadeia nacional de lojas, reconhecido como funcionário exemplar em todos os sentidos. Até que um derrame cerebral o deixou entre a vida e a morte. Logo após sua alta, o executivo recifence, há 30 anos morando no Rio, começou a doar compulsivamente dinheiro e alimentos a quem via pela frente, desenvolvendo o que os médicos chamam de generosidade patológica. O quadro foi descrito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto D’Or de Pesquisa, num artigo publicado na edição de agosto da revista científica “Neurocase”.

– A generosidade causou prejuízos financeiros substanciais à família, a ponto de passarem a depender da ajuda da mãe do paciente, com a perda definitiva da capacidade de prover o sustento da família – conta o neurologista Ricardo de Oliveira, um dos médicos que analisou o paciente, morto em 1999, aos 49 anos, dez anos depois do derrame.

Segundo o médico, a hemorragia destruiu uma região do cérebro relacionada à tomada de decisão, à recompensa e à punição.

– Ao contrário das pessoas que passam por experiências de quase-morte, nosso paciente tornou-se generoso de um jeito inconsequente, causando sofrimento e danos materiais a sua família. Pacientes que enfrentam a experiência de quase-morte não se tornam inconsequentes, muito ao contrário – diz o pesquisador.

O neurologista Jorge Moll Neto, que também participou do estudo, explica que o executico sentia prazer em doar:

– A região subcortical regula o comportamento e o sistema de recompensa. O paciente sofreu uma mudança de comportamento muito radical, a ponto de afetar sua funcionalidade, por isso, é patológico. Ele arruinou as próprias finanças e se tornou incapaz de se sustentar – diz o neurocientista e presidente do Instituto D’Or.

Oliveira atendeu o executivo pela primeira vez em abril de 1990, ao Hospital Gaffrée e Guinle:

– Ele veio encaminhado por um dos meus professores da faculdade de medicina. Quando o vi pela primeira vez, já havia transposto a fase aguda da hemorragia cerebral que o acometera um ano antes, em maio de 1989, complicação da hipertensão arterial de vários anos.

Quando perguntado pelos pesquisadores se queria voltar ao trabalho, ele teria dito que já tinha trabalhado o suficiente e que era hora de “aproveitar a vida, que é muito curta”. O homem disse aos médicos que estava ciente das mudanças em seu comportamento e alegou que havia visto “a morte de perto” e queria “ser alto astral” a partir de então.

Em entrevista ao jornal “Huffington Post“, o neurologista Larry Goldstein, diretor do centro de estudos da Universidade de Duke, disse não é incomum observar mudanças de personalidade após a ocorrência de derrames:

– Mas este caso em particular é aparentemente novo. O acidente vascular cerebral (derrame) causar uma variedade de alterações neuropsicológicas e comportamentais – disse, acrescentando que os danos cerebrais causados ​​pela baixa oferta de oxigênio pode levar a mudanças emocionais, sendo a depressão a mais comum.

O interesse dos especialistas no caso, publicado apenas agora, é desvendar o que incentivou o comportamento filantrópico do executivo. Essa informação poderia ajudar a descobrir quais áreas são responsáveis pelo “delicado equilíbrio entre altruísmo e egoísmo, que consiste em um dos pilares da tomada de decisões”.

O Globo