Mourão diz que não acha que Pompeo utilizou o Brasil para fazer campanha política: “isso é desconhecer os Estados Unidos e até não respeitar o povo americano”

Foto: Jorge William/Agência O Globo

O vice-presidente Hamilton Mourão disse nesta segunda-feira que não “viu nada de mais” na visita do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, à fronteira brasileira com a Venezuela. Segundo Mourão, achar que isso é campanha política a favor do presidente Donald Trump é “desconhecer os Estados Unidos” e até “desrespeitar o povo americano”.

— Não acho [que Pompeo utilizou o Brasil para fazer campanha], campanha política deles tem que ser feita lá dentro dos Estados Unidos. Acho que isso é desconhecer os Estados Unidos e até não respeitar o povo americano, como se o povo americano fosse gado e fosse, vamos dizer assim, ter alguma vantagem do Mike Pompeo ir até lá, não tem nada demais nisso — afirmou.

Mourão disse que respeita as críticas do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e de ex-chanceleres, à vinda de Pompeo ao Brasil faltando menos de dois meses para as eleições americanas. Ele afirmou, no entanto, que o Brasil e os EUA sempre foram alinhados e que não vê “nada demais” na visita.

— O pessoal criticou isso, eu respeito as criticas das pessoas, ex-chanceleres, o presidente da Câmara também, mas eu não vi nada demais nisso daí. Nós temos um alinhamento com os Estados Unidos desde a época da nossa independência, os EUA foram o primeiro [país] a reconhecer a nossa independência — disse.

Na sexta-feira, Maia chamou a presença de Mike Pompeo de uma “afronta” às tradições da política externa brasileira. Para ele, o Brasil “deve preservar a estabilidade de fronteiras e o convívio pacífico com os países vizinhos”.

O vice-presidente disse ainda que a situação na Venezuela é “mais que muito complicada” e citou relatório de uma missão da Organização das Nações Unidas (ONU), que vinculou o governo de Nicolás Maduro a crimes contra a Humanidade.

— A Venezuela é uma situação mais que complicada, vocês viram ai o ultimo relatório da ONU, da Comissão de Direitos Humanos da ONU, sobre os crimes cometidos pelo governo venezuelano contra o povo venezuelano. Acredito que nenhum de vocês teve oportunidade de ir la na Operação Acolhida, mas as pessoas que chegam lá chegam com a roupa do corpo, são as pessoas mais vulneráveis da Venezuela que fogem para o Brasil a pé — disse.

A vinda do representante do governo de Donald Trump, que esteve também no Suriname e na Guiana e seguiu para a Colômbia, teve como principal objetivo discutir a situação na Venezuela. A visita aconteceu a pouco mais de um mês da eleição presidencial americana, num contexto em que Trump busca os votos da comunidade latina do estado da Flórida, em especial cubanos e venezuelanos exilados, e em que se discute a participação ou não da oposição venezuelana nas eleições legislativas convocadas por Nicolás Maduro para dezembro.

Desde janeiro de 2019, em coordenação com os EUA e países como a Colômbia, o Brasil reconhece o deputado opositor Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional, como presidente interino da Venezuela. Imaginava-se que a pressão diplomática intensa, ao lado do aumento das sanções, levaria à queda de Maduro. No entanto, ele se manteve no poder com o apoio dos militares e de países aliados como Rússia, China e Turquia.

Discurso na ONU

Questionado sobre o discurso que o presidente Jair Bolsonaro deve fazer na Assembleia Geral da ONU, Mourão disse que Bolsonaro vai tratar dos esforços brasileiros para controlar os desmatamentos na Amazônia.

— Vai mostrar, em principio, aquilo que nós estamos fazendo: a criação do Conselho [Nacional da Amazônia Legal], a operação Verde Brasil II, os esforços do governo no sentido de combater as ilegalidades, não é simples, não é fácil, elas continuam a acontecer, infelizmente — comentou.

O Globo