O Brasil corre o risco de sofrer um apagão nas transmissões de tevê durante a Copa do Mundo de 2014

Isto É Dinheiro:

O ano era 1981 e a Seleção de futebol do Brasil, comandada pelo técnico Telê Santana, disputava as eliminatórias para a Copa do Mundo da Espanha. Em dois jogos do torneio, no entanto, surgiu um problema que deixou a população brasileira preocupada. Por conta de uma falha no satélite, as imagens que seriam transmitidas ao vivo pela televisão não chegaram aos telespectadores. Assustado, o povo se perguntava: o País vai ficar sem ver a Copa? Após alguns ajustes, a Intelsat, empresa americana dona do satélite utilizado para a transmissão na época, normalizou a situação.

Assim, um ano depois, os brasileiros assistiram, ao vivo, ao centroavante italiano Paolo Rossi marcar, em jogo válido pelas quartas-de-final da Copa, os três gols da Itália que acabaram com o sonho do tetracampeonato do escrete canarinho. Refrescar a memória com esse episódio é bom porque, quase 30 anos depois, o espectro de um apagão na tevê  está de volta , só que agora numa dimensão muito maior e com o agravante de a próxima Copa, em 2014, ser realizada no Brasil. A diferença em relação a 1982 é que, desta vez,  o problema não está relacionado a falhas ocasionais, mas sim ao excesso de demanda por serviços de satélite no País, que pode comprometer as transmissões. “A capacidade dos satélites é limitada. É possível que a demanda venha a ser maior do que a oferta”, afirma Liliana Nakonechnyj, diretora de engenharia de transmissão da Rede Globo. “Além das brasileiras, durante a Copa haverá emissoras do mundo inteiro querendo transmitir os jogos para seus países de origem.”

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Oferta limitada: o excesso de demanda por serviços de satélites no Brasil e a burocracia da Anatel ameaçam a transmissão da Copa do Mundo
A executiva da Rede Globo não está sozinha em sua preocupação com o risco de apagão nas transmissões de tevê durante o evento mais importante do planeta. Profissionais da área técnica, como José Cristovam, diretor da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET), também alertam para o problema. Para ele, não há dúvidas de que a procura por satélites tem sido muito maior do que a oferta.
“E a situação deve piorar de forma significativa na Copa de 2014”, diz. São vários os fatores que levam profissionais do naipe de Liliana e Cristovam a temer o caos na infraestrutura de comunicação em 2014. Nos últimos anos, houve uma explosão da procura por serviços de telecomunicações via satélite, no Brasil e no mundo. Isso se explica pelo aumento da distribuição de conteúdo e a entrada de novos competidores no setor de televisão por assinatura via satélite.
Outro motivo é a expansão da tevê digital, cujo cronograma de implantação no Brasil prevê que, em 2016, as emissoras desliguem todo o sistema de transmissão analógico. Ou seja, o cenário já seria complicado sem a Copa. A situação se torna ainda mais delicada levando-se em consideração as dificuldades para aumentar a capacidade dos satélites. “O lançamento de satélites depende de uma série de aspectos”, diz Liliana. Um deles é o fato de que há longos processos de licitações de responsabilidade da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Outro, é que haja o interesse das operadoras de satélite em realizar investimentos elevados.
No ano passado, a média de utilização da capacidade instalada dos satélites na América Latina beirava os 85%. O excedente atual não é suficiente para garantir o atendimento nos picos de utilização que a Copa de 2014 vai gerar. Para dar uma ideia de quanto essa demanda é brutal no mundo inteiro, basta observar os números de audiência dos jogos da Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul. Segundo a Fifa, as partidas do mundial foram transmitidas para todos os países e regiões do planeta, inclusive a Antártida e o Círculo Polar Ártico. Mais de 3,2 bilhões de pessoas, ou 46% da população mundial, assistiram a, no mínimo, 20 minutos de transmissão ao vivo.  A final entre Espanha e Holanda, foi vista por 619,7 milhões de telespectadores.
Não são somente as emissoras de tevê que estão preocupadas com a falta de satélites. A Sky, maior operadora de tevê por assinatura via satélite do País, com 2,5 milhões de clientes, também começa a ter problemas. Segundo o presidente da empresa, Luiz Eduardo Baptista, não há como expandir os serviços, sem o lançamento de um novo satélite. É por isso que a empresa vai investir em um satélite próprio, que será colocado em órbita até 2013. O projeto deve custar, de início, US$ 400 milhões.
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Para colocar o plano em prática, a Sky depende de uma licitação da Anatel, cujo cronograma já está atrasado. Inicialmente previsto para começar em junho deste ano, o leilão de quatro posições na órbita terrestre brasileira só teve seu edital publicado na semana passada. Considerando que, após o encerramento da licitação, o tempo mínimo para colocar um satélite em órbita é de três anos, segundo os especialistas, não há mais tempo para erros. “Está todo mundo pensando que vai faltar aeroporto na Copa, mas na verdade vai é faltar satélite”, afirma Baptista.

O presidente da Anatel, Ronaldo Sardenberg, ainda tem de destravar outra licitação, também criticada pelas empresas de tevê. Trata-se do leilão das faixas de frequência entre 3,4 GHz e 3,6 GHz, que devem ser utilizadas para a oferta de de banda larga. As empresas de radiodifusão reclamam que o uso dessas frequências interfere no sinal que é enviado dos satélites para as antenas parabólicas. “São 22 milhões de parabólicas em uso no Brasil”, afirma Luís Roberto Antonik, diretor-geral da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). “Essas pessoas vão ficar sem ver televisão se a licitação for feita do jeito como está.” Após as reclamações das emissoras, a Anatel decidiu prorrogar o prazo para consulta pública do edital.
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O céu é o limite: a Sky, de Luiz Eduardo Baptista, vai investir US$ 400 milhões no lançamento de um satélite próprio
Ainda não há data para o leilão.  Procurada pela DINHEIRO, a direção da Anatel recusou-se a conceder entrevista. Mas, diante de todos os argumentos apresentados pelo setor de radiodifusão, fica a pergunta: vai mesmo haver um apagão de satélites em 2014? “Eu diria que não, mas só afirmo isso por acreditar que as operadoras de satélite vão fazer alguma coisa para evitar problemas ”, diz Cristovam, da SET. Segundo ele, existem algumas ações paliativas que poderiam ajudar a resolver a questão. Uma delas seria o remanejamento de satélites estrangeiros para o Brasil, temporariamente. “Falta as empresas de satélite confirmarem que vão fazer isso, para nos tranquilizar”, afirma Cristovam.
Enquanto isso, as emissoras continuam trabalhando. “Independentemente do possível apagão, vamos trabalhar com fibra ótica e, eventualmente, com satélites”, diz Victor Hannoum, diretor de engenharia e operações da ESPN no Brasil. “Isso já foi feito na África do Sul e deu certo.” As operadoras de satélite, de fato, ensaiam colocar o time no ataque. A Hispamar, empresa controlada pela espanhola Hispasat e pela empresa de telefonia Oi, vai lançar, em 2013, o satélite Amazonas 3, que substituirá o Amazonas 2, atualmente em órbita, ampliando a capacidade de transmissão da empresa. Segundo Sérgio Chaves, diretor comercial para o Brasil da Hispamar, nos  últimos anos, a indústria de satélites conseguiu atender com competência as demandas sazonais de capacidade, quando a oferta era  escassa. Ele confirma que a estratégia de redirecionar satélites   para o País pode ser adotada.
Já a Star One, operadora de satélite que pertence à Embratel, está investindo US$ 270 milhões na construção do satélite Star One C3, que vai substituir o Brasilsat B3. A previsão é colocá-lo em órbita até o final de 2012. A empresa não atendeu aos pedidos de entrevista e enviou um comunicado à DINHEIRO no qual afirma que não acredita na ocorrência de um apagão da tevê. Segundo a companhia, a decisão de investir em um lançamento não se deve a eventos sazonais, mas sim a uma expectativa de crescimento consistente da demanda. Enquanto isso, as emissoras, os patrocinadores da Copa e os aficionados por futebol no Brasil veem o tempo passar e, com ele, o receio de que um gol contra atrapalhe a festa do esporte mais popular de todos os tempos.
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