37ºC é coisa do passado: a temperatura corporal média dos humanos está caindo

Foto: (Colin Anderson Productions pty ltd/Getty Images)

Em algum momento da infância, aprendemos que a temperatura corporal considerada normal é de 37º C — alterações muito grandes nesse número podem ser sintomas de problemas de saúde. Mas essa informação que guardamos para toda a vida provavelmente está desatualizada em mais de um século: uma nova pesquisa indica que a temperatura corporal dos seres humanos vêm caindo desde a Revolução Industrial.

O que hoje consideramos “normal” foi estabelecido em 1851, quando o médico alemão Carl Reinhold August Wunderlich mediu a temperatura das axilas de mais de 25 mil pessoas, chegando ao valor de 37º C. Desde então, o número tem sido aceito como padrão na medicina, incluindo por órgãos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em um estudo publicado na revista eLife, porém, uma equipe de cientistas da Universidade Stanford, nos EUA, argumenta que esse valor está desatualizado, e que estamos ficando mais frios – literalmente. Os pesquisadores analisaram três bases de dados de períodos distintos: uma de soldados da Guerra Civil norte-americana (1861 a 1865), uma da década de 1970 e outra dos anos 2000 e 2010. No total, foram 677.423 amostras de pessoas diferentes (e épocas) diferentes.

A comparação entre as medições revelou que os homens de hoje têm uma temperatura média 0,59º C menor do que a dos homens que nasceram na primeira metade do século 19. As mulheres também estão mais frias: -0,23º C, em média. Em vez de 37º C, a nova temperatura padrão é de 36,62º C para homens – para as mulheres, o valor é ligeiramente maior.

Estudos anteriores já haviam encontrado uma possível redução na nossa temperatura média, mas essa inconsistência geralmente era atribuída à falta de confiabilidade em bases de dados antigas. Essa questão também surgiu no novo estudo – afinal, o controle da higiene, dos métodos utilizados e do quadro de saúde dos soldados na Guerra Civil dos EUA não era lá dos melhores, o que poderia afetar os resultados.

Ao utilizar também de bases de dados mais recentes, porém, os pesquisadores argumentam que a queda não se deve a falhas, e sim a um padrão contínuo de perda de temperatura, década após década.

Nova vida, nova temperatura

Embora o estudo não aponte um motivo exato para essa redução da temperatura, os cientistas têm alguns palpites, como o conjunto de mudanças no nosso estilo de vida desde a Revolução Industrial: temos acesso mais fácil a roupas quentes, ambientes com temperatura controlada (seja com ar-condicionados, seja com aquecedores), somos mais sedentários, a dieta se tornou mais variada, etc..

Além disso, sabemos que outras características humanas, como altura e massa corporal, vêm se alterando ao longo das décadas – o que também pode influenciar o resultado do termômetro.

Mas o que parece ser mais decisivo para a mudança são os avanços da medicina. Na época em que Wunderlich estabeleceu o valor de 37º C, a expectativa de vida era de 38 anos, e uma parte significativa da população estava exposta a doenças como tuberculose ou gengivite. Com a popularização de vacinas, antibióticos potentes, processos de higiene mais adequados e um melhor padrão de vida em geral, os processos inflamatórios em nossos corpos caíram — desacelerando, assim, nosso metabolismo, o que se traduz em uma temperatura corporal mais amena.

Apesar da nova descoberta, é importante destacar que a temperatura “normal” não é um valor único: na verdade, ela está mais para um intervalo. Algumas pessoas são naturalmente mais quentes que outras. Mulheres, por exemplo, têm temperaturas levemente maiores que a de homens, e que sofrem alteração durante o ciclo menstrual. Diferenças étnicas também influenciam, e o novo estudo se restringiu apenas a amostras de norte-americanos. Mesmo a temperatura de uma única pessoa pode variar, dependendo da parte do corpo ou do momento em que for medida.

E não se assuste: você não vai precisar fazer ajustes nas contas para saber se está com febre ou não. A variação é muito pequena para afetar nossas vidas diretamente. Se você não quer abandonar o bom e velho 37ºC como padrão no termômetro, está tudo bem.

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Cientistas criam curativo que usa temperatura corporal para acelerar cicatrização

(Wyss Institute / Harvard University/Divulgação)

Limpar e proteger feridas da maneira correta pode ser crucial para evitar que elas piorem. Antes, as tentativas limitavam-se a cuidar bem dos machucados: lavar a região com água e sabão, colocar um curativo e esperar cicatrizar.

Mas esses cuidados com as feridas evoluíram, e os chamados “curativos inteligentes” viraram moda. Alguns deles, como os que usam impulsos elétricos para acelerar a cicatrização, ainda estão sendo testados em laboratório; outros, mais simples, já foram até usados em guerras. Agora, cientistas da Universidade Harvard adicionaram outro modelo à lista: o curativo que usa o calor corporal para acelerar a cicatrização.

Batizados de AADs (active adhesive dressings, ou curativos adesivos ativos), eles são feitos de hidrogel elástico e acumulam uma lista de vantagens: aderem bem à pele, são mais resistentes, antimicrobianos e sensíveis ao calor.

De acordo com os pesquisadores, que detalharam a invenção na revista científica Science Advances, os AADs se contraem quando estão em contato com a pele e podem fechar feridas significativamente mais rápido que outros métodos, além de prevenir a proliferação de bactérias sem a necessidade de qualquer outro medicamento.

Os cientistas defendem, ainda, que os curativos não são úteis apenas para ferimentos superficiais, mas funcionam também em tecidos internos, como o coração – e podem servir para levar medicamentos e até ajudar em terapias que usam robótica médica (algo que você pode entender melhor lendo este texto da SUPER).

Segundo os pesquisadores, a invenção foi inspirada na pele de embriões humanos (fetos), que é capaz de se curar completamente sem formar tecido cicatricial. Em português: a partir do momento em que saímos do útero, precisamos passar por um longo processo de cicatrização para fechar uma ferida. Esse ritual todo (que você pode ler em detalhes aqui) geralmente envolve combate a inflamações e a formação de uma cicatriz. Nos embriões, no entanto, o papo é outro: suas células conseguem produzir fibras da proteína actina, que faz a pele se contrair rapidamente para unir as bordas da ferida antes da formação de cicatriz – como se fosse uma “mochila sendo fechada”, na metáfora dos cientistas.

Com o objetivo de imitar esse mecanismo, os pesquisadores adicionaram à fórmula do hidrogel usado no curativo um polímero conhecido como PNIPAm. Ele tem como característica repelir moléculas de água e encolher a uma temperatura de 32 ºC (mais ou menos a da pele humana). O novo hidrogel híbrido, assim, consegue contrair quando exposto à temperatura corporal. O material é capaz de transmitir a força dessa contração ao tecido da pele, que também se contrai, fazendo com que a ferida se feche mais rápido.

Até agora, testes realizados em peles de animais foram um sucesso. “O AAD aderiu à pele de porco com mais de dez vezes a força adesiva de um Band-Aid e impediu o crescimento de bactérias, por isso esta tecnologia já é significativamente melhor do que os produtos de proteção de ferimentos mais usados, mesmo antes de considerar suas propriedades de fechamento da ferida”, disse Benjamin Freedman, um dos autores do estudo, em comunicado. Em testes com ratos, as feridas ficaram 45% menores com o uso dos ADDs. “Esperamos realizar outros estudos pré-clínicos [em laboratório] para demonstrar o potencial do AAD como um produto médico, e então trabalhar para colocá-lo no mercado”.

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