Bolsonaro vai reestruturar comunicação para acabar com conflitos e melhorar imagem do governo

O porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barro. Foto: José Dias/Presidência

Foco de crise no governo Jair Bolsonaro , a comunicação do Palácio do Planalto passará por uma reestruturação que delimitará o papel da Secretaria de Comunicação, comandada por Fábio Wajngarten, e do porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros. O decreto com a nova configuração está previsto para ser publicado ainda nesta semana. O objetivo é diminuir os conflitos internos e melhorar a imagem do governo.

Com a nova estrutura, Rêgo Barros passará a responder diretamente à Secretaria-Executiva da Secretaria de Governo, do ministro Luiz Eduardo Ramos. No organograma atual, o gabinete do Porta-Voz é subordinado à Secom, mas, na prática, já atuava como uma estrutura paralela, com funções similares.

Nos bastidores, o porta-voz e o secretário de Comunicação disputavam espaço no Planalto no relacionamento com a imprensa. Por determinação do ministro Ramos, a partir de agora ficou definido que a Secretaria de Imprensa (SIP), subordinada a Secom, ficará responsável por atender os jornalistas, enquanto que o porta-voz se encarregará de transmitir as declarações e posicionamentos do presidente.

A nova configuração foi definida em uma reunião recente entre Ramos, Rêgo Barros e Wajngarten. Aos jornalistas, o porta-voz disse que a reorganização da estrutura já estava em estudo desde fevereiro.

– A principal finalidade foi adequar as funções do gabinete do porta-voz e integrar efetivamente a condução da comunicação do governo com a Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República – disse Rêgo Barros.

Segundo o porta-voz, a intervenção do ministro Ramos busca produzir um “melhor relacionamento” entre as duas estruturas. Ele acrescentou ainda que a mudança é “fruto de um entendimento de ambas as estruturas sobre suas atribuições e as necessidades de um trabalho sinérgico para fortalecer a imagem do governo.”

Secretário de ImprensaO Palácio do Planalto não comentou a demissão do Secretário de Imprensa, Paulo Fona, demitido uma semana após chegar o cargo. O governo, no entanto, negou que o posto será extinto da estrutura. Este foi o terceiro secretário de imprensa a deixar a função em sete meses de governo.

Em nota divulgada na noite de terça-feira, Fona diz que a decisão partiu do presidente Bolsonaro e atrelou a dispensa ao seu histórico profissional com passagens pelo MDB, PSDB e PSB. Ele afirmou que toda a sua carreira havia sido relatada a Fabio Wajngarten, que não teria visto o currículo como um empecilho.

Fona chegou ao Planalto para ocupar o cargo que havia sido deixado vago após o jornalista Fernando Diniz pedir exoneração em menos de um mês por divergências com Wajngarten. O posto também havia ficado vago no começo do governo Bolsonaro, até ser ocupado pelo coronel do Exército Alexandre Lara, que foi nomeado em 20 de fevereiro e exonerado em maio.

O Globo

‘Não haverá democracia estável em nenhum país do mundo árabe’, diz cientista político

Aos 81 anos, Shlomo Avineri é um dos mais respeitados e veteranos professores de Ciências Políticas da Universidade Hebraica de Jerusalém. Nascido na Polônia, foi diretor-geral da chancelaria israelense entre 1975 e 1977, chefiou a delegação de Israel à Unesco e integrou a comissão que negociou cláusulas do Acordo de Camp David, da paz entre Israel e Egito.

O quanto a Primeira Guerra Mundial foi importante em termos de Oriente Médio? Britânicos e franceses sabiam o quanto eles estavam mudando a história dessa região?

A Primeira Guerra acabou com quatro impérios. Além do alemão, acabou com o russo, com o austro-húngaro e também com o otomano. Impérios que foram criados séculos antes e simplesmente desparecem em quatro anos. Foi algo impressionante. Sempre, na História, leva tempo para as coisas mudarem e se assentarem. Aconteceu na Europa Oriental, nos Bálcãs e também na nossa área. A guerra acabou com o Império Otomano e os ingleses e franceses conquistaram essa região e a dividiram entre eles. Criaram colônias, países artificiais, um mapa regional com nações que nunca tinham existido dessa forma, como Iraque, Síria e Líbano. Egito é um país histórico com tradição, mas Iraque, Síria e Líbano nunca haviam existido como Estados independentes nessas fronteiras. Isto é relacionado a dois diplomatas: o britânico Sykes e o francês Picot, que dividiram a região sem considerar a História, os grupos étnicos, os grupos religiosos. É por isso que, se você olhar para o mapa, vai ver linhas retas, sem se importar com a realidade no campo. Por décadas, houve interesse dos governantes em manter essa situação, mas, agora, estamos vendo pela primeira vez mudanças, e não só nas áreas de Síria e Iraque, mas também no Sudão, que também foi criado pelos britânicos e já se dividiu em dois países. Isso é só o começo. Vemos que a Líbia, que foi criada pelos italianos como colônia, também está se fragmentando na época pós-Kadafi. No Iraque, já existe uma autonomia curda, que na verdade é um país de fato. E pode ser que o Iraque se divida de vez, por causa da briga entre xiitas e sunitas. Vemos na Síria que, apesar do regime de Damasco ainda existir, não consegue controlar algumas áreas. Lá, houve o aparecimento de um grupo islamista fundamentalista, o Estado Islâmico (ex-Isis), que decretou a criação de um califado. Pode não ser sério, mas fica claro que as fronteiras não existem mais. Acho que veremos uma época de instabilidade, com mudanças das fronteiras existentes.

Mas, depois de cem anos de países criados artificialmente, os sentimentos nacionalistas não desempenham nenhum papel?

Boa pergunta. Realmente existe a identidade iraquiana, síria, libanesa. Não se pode desprezar ou desdenhar disso. Mas existem só porque esses países foram governados, todos esses anos, por regimes ditatoriais. Os ditadores conseguiam enfraquecer as minorias, os grupos distintos. Mas, no momento em que há uma crise num desses países, fica claro que a identidade iraquiana ou síria não é a dominante. Os curdos não são árabes, por exemplo: têm uma língua própria, uma tradição diferente, uma identidade distinta. No caso de sunitas e xiitas, sempre quando há uma tensão interna, essa identidade religiosa é muito mais importante do que ser cidadão iraquiano ou sírio.

Como senhor vê a influência de tudo isso sobre Israel? Como vê o papel ou o lugar de Israel em meio a todas essas mudanças que estão acontecendo no mapa?

Antes de tudo, Israel não foi criada por Sykes-Picot. A Liga das Nações aprovou o Mandato Britânico em Israel, que, com a Declaração Balfour, disse ver “com bons olhos a criação de um lar judaico na Palestina”. Mas isso mantendo os direitos dos outros grupos, no que os britânicos fracassaram. Israel foi criado em 1948 em consequência de legitimidade internacional na ONU, que aprovou dividir a Palestina britânica em dois países, um judeu e um árabe. Os judeus aceitaram, os árabes não. Quer dizer, foi um processo completamente diferente. Mas, para responder sua pergunta, digo que ainda não vemos, até agora, uma influência direta, apesar do que aconteceu nos últimos três anos no mundo árabe. As mesmas posições políticas continuam em Israel e na Autoridade Palestina, e não se tornaram mais extremistas ou moderadas. Mas há uma influência indireta: quando há instabilidade na região, nenhum dos dois lados – nem Israel, nem palestinos – se sentem seguros para tomar decisões difíceis que incluem algum tipo de perigo. Isto é, dificulta chegar à paz.

O mundo deveria simplesmente “cancelar” o acordo Sykes-Picot e dizer às populações locais que se organizem em outro mapa?

Escute: a época colonialista acabou. O mundo… EUA, Rússia, França… não podem mais determinar o que vai acontecer. Realmente, o futuro vai ser decidido pelas entidades locais. Há interesses russos e americanos que vão afetar, mas são as populações que vão decidir. Não estamos numa situação em que podemos fazer um “Sykes-Picot 2”. Além disso, há um fracasso moral de todo o mundo, principalmente dos países democráticos, em relação ao que está acontecendo, principalmente na Síria. Lá, acontece, nos últimos anos, algo terrível. Um governo sufoca, de maneira cruel, um movimento de oposição armada. Cerca de 300 mil sírios já morreram, a maioria vítimas de seu próprio governo, que usa inclusive gás venenoso. Armas químicas são que o mundo não deveria aceitar. Realmente, as decisões aqui no Oriente Médio, serão locais, com resultados bem diferentes dos que os EUA e o Ocidente gostariam de ver. No Iraque, os EUA intervieram com razão porque Saddam Husseim também estava usando armas químicas contra seu próprio povo, mas os americanos foram com uma visão irreal de que seria possível instituir uma democracia à força, o que não funciona. Depois de três anos de Primavera Árabe, olha o que está acontecendo. É fácil derrubar em protestos um ditador, mas isto não cria democracia. É preciso uma sociedade civil, a construção de instituições, uma cultura de tolerância, de pluralismo. E as sociedades árabes não estão prontas ainda. Vimos que, no Egito, a opção, no final das contas, foi entre os fundamentalistas da Irmandade Muçulmana e uma ditadura militar bem popular em meio à elite secular. Não é um pluralismo e uma democracia real.

Como o senhor vê o mapa do Oriente Médio daqui cem anos, quando a Primeira Guerra Mundial completar 200 anos?

A verdade é que eu não sei. Ninguém pode saber. Quem iria imaginar, por exemplo, há meio ano, que haveria um califado no Iraque e na Síria. A tentativa aqui de criar Estados pelo modelo ocidental não vingou. A onda de democratização que aconteceu na Europa, em 1948, e na Europa Oriental, a partir de 1989, também não aconteceu com a Primavera Árabe. Ao que tudo indica, não haverá democracia estável em nenhum país do mundo árabe. As fronteiras vão mudar, mas em que direção, não se pode dizer e nem adianta tentar adivinhar. Mas uma coisa nós sabemos: que o status que existia depois de Sykes-Picot já não existe.

O Globo