Caros amigos e leitores, a partida brusca de João Faustino me fez refletir e me fez lembrar várias passagens que tive com João durante alguns anos, e peço licença a vocês para compartilhá-las.
Conheço João Faustino de muitos anos. Conheço João do Coração da campanha de 1982, quando eu, ainda menino, saía numa “cagalona” de uma camioneta ao lado de Flavio, meu irmão, meus pais e muitos vizinhos com isopor cheio de cachorro quente e muitas grapetes percorrendo as ruas de Natal nas passeatas de Jajá, o galego do Alecrim. Eram muitas horas de lambadas e carreatas. Tempos bons e que não voltam mais.
Na “cagalona” da camioneta, os votos para deputado federal eram divididos entre João e Jessé Freire Filho (Jessezinho), Deputado Federal que muito cedo partiu dessa para o andar de cima.
Eu, menino, encontrei João mais de uma vez nessas carreatas, andando nas ruas e colocando o adesivo em forma de coração com seu nome nas pessoas, passando entre os carros com rolos desses adesivos e pregando. Eu quase toda carreata carregava o coração de João no peito.
Tempos depois descobri que João morava muito perto da casa dos meus pais. ele morava na esquina da Av. Xavier da Silveira praticamente vizinho onde hoje é o restaurante do Lula.
Sempre que descia do ônibus e passava em frente a casa de João, por varias vezes o encontrei saindo e sempre cordialmente dizia bom dia ou boa tarde, garoto.
O tempo passou e em 1986, numa apoteótica campanha, eu já um “pré-adolecente” totalmente precoce, fiquei contra João na eleição para governador mais disputada da história do RN. Participei, ao lado de alguns primos, do movimento Tempo Jovem da campanha do então candidato Geraldo Melo. Foi uma campanha maravilhosa, disputadíssima e resolvida só no final da apuração. Geraldo venceu por uma margem muito pequena de votos uma chapa imbatível denominada “João, Lavo e Jajá”, que tinha os candidatos Lavoisier Maia e José Agripino como candidatos ao Senado, que se saíram vitoriosos.
Anos depois vi que tinha virado cliente de uma loja cujas proprietárias eram suas filhas Lissa e Fafá, a Philipe Martin no CCAB e nessa época já havia conhecido Edson, seu filho mais velho.
Voltei a reencontrar João apenas em 1996, ele candidato a Prefeito de Natal, tendo Hermano Morais que tinha acabado de deixar o PMDB para entrar no PSDB como seu vice e eu Presidente do PSDB Jovem no RN. Meu Pai, Assis Oliveira participava de sua primeira eleição para Vereador em Natal, também filiado ao PSDB.
A campanha que começou muito bem, desandou no meio e nem para o segundo turno a chapa puro sangue passou. Ficamos pelo caminho, mas fiz um boa aproximação com João , Hermano e todos os vereadores eleitos pelo partido, Paulinho Freire, Sonali Rosado e meu pai que assumiu sendo o 1º suplente.
No inicio de 1998, na casa de Dr Geraldo, presenciei um discussão de João com Geraldo. Dr. Geraldo, inquieto vendo o tempo passar e insatisfeito com a aliança com os Alves, pensava em romper. João tinha sido secretário do Governo Garibaldi na pasta de educação e batia de frente com a proposta de Geraldo. No escritório anexo na parte de cima da casa, eu, Jerônimo Melo e João Uruahy, presenciamos uma discussão de dois grande nomes da política do RN sobre os rumos do PSDB. O nível era tão decente, elevado, que sai dali vendo duas pessoas colocarem as ideias de uma forma tão diferente, mas se respeitando. Debate que só fez aumentar a minha paixão pela arte da política.
Em 1998, fui às ruas ainda como Presidente do PSDB Jovem carregando a bandeira de Agripino num campanha quase suicida contra o colosso do governo Garibaldi. João não obteve êxito para Deputado Federal mas já tinha uma grande influencia no PSDB nacional e tinha feito grandes amizades. Foi fazer parte do Governo FHC, chegou a ocupar altos cargos e tinha acesso até ao Presidente.
Fui me decepcionando com a política, o tempo passou e voltei a reencontrar João já na campanha de Fernando Bezerra em 2002. Mantivemos um contato rápido, mas ele sempre cordial, educado e perguntando pelas coisas, minha vida, me parabenizando pela estrutura que montei para atender ao então candidato Fernando Bezerra.
O tempo passa e sempre me encontrava com ele socialmente, sempre a mesma educação, João era um gentleman no sentido amplo da palavra.
Em 2007 em São Paulo, num papo com Alexandre Macedo, volto a reencontrar João, foram umas duas horas de papo. João morava em São Paulo nessa época, participava do governo paulista, onde era homem forte e amigo pessoal de José Serra e Aloisio Nunes Ferreira, atual senador.
Em 2008 veio o primeiro grande baque, a prisão de Edson, me lembro como se fosse hoje, me encontrei com ele na banca de Tota, ele me puxou, com os olhos marejados e disse, “Bruno, você está vendo o que estão fazendo com Edson?” Eu senti aquele ardor, a amargura dentro dele, a lágrima desceu e ele colocou pra fora, “Isso é uma grande injustiça”. João me convidou para um almoço em sua casa que vários amigos estavam organizando para receber Edson, infelizmente não pude comparecer. Em 2012, Edson seria inocentado pela Justiça e João mostrou que tinha razão.
Tempo passa, tempo voa e volto a falar de João já como blogueiro, e infelizmente de uma forma terrível, em novembro de 2011 fui o primeiro a noticiar antes das 06:30 da manhã de sua prisão na operação Sinal Fechado, operação essa que trazia sérias acusações de irregularidades em licitações relacionadas ao Detran e a inspeção veicular. Com consciência tranquila, mas com o coração apertado fiz uma cobertura total, imparcial, responsável e real da operação.
Imaginava que João iria ficar “sentido” comigo, e que os seus familiares também, alguns amigos até chegaram a pedir para “aliviar”. Mas mantive o rumo e a consciência que tinha que cumprir meu papel de informar com responsabilidade.
João foi solto e sempre alegou inocência, mas confesso que não tinha coragem de procurá-lo. Falava sempre com “Marcolero”, seu genro, e pegava noticias de como ele estava.
Para minha surpresa, em novembro do ano passado, recebo uma ligação de Ricardo Abreu perguntando se João podia me ligar. “Lógico que sim, respondi. No dia seguinte, recebo ligação e do outro lado era João. “Bruno é João Faustino, tudo bem?”. Eu, surpreso de verdade, disse tudo, a que devo essa honra João?. “Ele disse: vou lançar um livro no dia 29 de novembro e gostaria de ir lhe entregar seu convite e seu exemplar pessoalmente, gostaria de compartilhar com você alguns pensamentos meus com você, gostaria de mostrar a minha situação” Eu prontamente, blogueirinho pequeno, me senti honrado e marcamos de no outro dia ele ir na minha empresa. Pontualmente às 10 horas, chegaram João e “MarcoLero”.
Foram duas horas de uma conversa maravilhosa, João abriu o seu coração. Eu notava que era um homem amargurado e se sentido injustiçado, até o tom da voz mudava quando falava da sua prisão e a forma como polícia invadiu a sua casa, chegando a arrombar uma porta, mais uma vez vi um pequena lagrima no canto de olho de João, por fim ele me entregou o livro, eu expliquei a minha situação de noticiar como blogue e ele prontamente respondeu, “você fez o seu papel exemplarmente, inclusive tenho noticias até que o MP me nega através de você, acesso todo dia sua pagina virtual e continue nessa linha. Não mude, não ache que tenho mágoa ou rancor de você, só precisava passar minha versão, a real situação e a grande injustiça que estão fazendo comigo e minha família”
Nos despedimos ele perguntando pelos meus Pais e mandando lembranças, apertou minha mão, olhou nos meus olhos e disse “Bruno, SOU INOCENTE”
Depois desse papo não encontrei mais João, mas tive a certeza naquele dia que João era um homem abalado com as cicatrizes da inclusão de Edson na Operacão João de Barro e com sua prisão na Operação Sinal Fechado. Não sei, João,se a justiça também irá inocentá-lo como inocentou Edson, mas quero dizer publicamente que acredito e vou continuar acreditando na SUA PALAVRA desde o dia que você apertou minha mão com força e disse “SOU INOCENTE”.
Vai com Deus, João do Coração!!!
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